Há silêncios e palavras jorrando de veias abertas... Viver é partilhar laços, fortalecer as turbulências... Esse espaço será uma travessia ousada e encantadora onde juntos nos debruçaremos na escuridão de desafios e colheremos estrelas em lutas comprometidas... 24.04.2006 - 9:03h(resomar) Obs: Este é um blog partilhado.

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Quinta-feira, Novembro 03, 2011



ACESSE NOSSO NOVO ENDEREÇO

www.entrelacosdocoracao.blogspot.com
É um blog partilhado.

Domingo, Janeiro 17, 2010


ACESSE NOSSO NOVO ENDEREÇO

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Sexta-feira, Maio 08, 2009



ACESSE NOSSO NOVO ENDEREÇO

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Terça-feira, Abril 28, 2009






POR UMA EDUCAÇÃO AMOROSA
Marcelo Barros*
(irmarcelobarros@uol.com.br)



Nos últimos dias, alguns jornais de TV têm divulgado estudos de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) sobre a evasão de jovens de salas de aula. A pesquisa aponta que a incidência de jovens que abandonam a escola ainda é muito alta. 43% destes jovens declaram que fazem isso por não ter motivação para estudar. Evidentemente, os fatores que levam a isso são diversos, mas uma constatação inevitável é a de que a escola ainda se mantém um tanto rígida e separada do cotidiano da vida, além de presa a conteúdos nocionais e métodos superados em um mundo no qual a juventude está envolvida em internet, orkut e jogos eletrônicos.

A realidade da educação tem mudado em toda a América Latina. Agora, além de Cuba, mais dois países foram reconhecidos pela UNESCO como territórios livres do analfabetismo: Venezuela e Bolívia. Outros estão no caminho. No nosso país, o programa “Brasil Alfabetizado” visa universalizar a alfabetização dos maiores de 15 anos. Já conseguiu alfabetizar mais de nove mil adultos. Apesar disso, ainda temos uma taxa de 16% de analfabetos. E o mais doloroso é que as pesquisas mostram: a maior parte das pessoas analfabetas no Brasil já passaram por alguma escola e saíram sem aprender a ler, ou como dizia Paulo Freire, a reinterpretar o mundo.

Não se pode negar que a atual gestão do Ministério da Educação esteja fazendo, em todos os níveis, um trabalho positivo pela transformação das estruturas da educação. Está havendo um aprimoramento das estruturas da educação infantil, integrando creche e escola e formando pedagogicamente as professoras encarregadas da primeira educação. Os exames que comprovam o rendimento educacional de cada classe e de cada escola expõem a competência e opção das professoras. Uma escola de periferia recebe uma avaliação positiva, enquanto outra, no mesmo bairro, com as mesmas condições e lidando com crianças da mesma classe social, recebe avaliação negativa. Isso revela que as condições sociais não explicam tudo e as professoras precisam sempre rever sua dedicação e cuidado. De fato, a criança dos primeiros anos aprende, não por alguma opção intelectual ou ambição pessoal, mas para agradar e receber aprovação e amor da pessoa adulta que a acompanha. Também no nível da escola média e universidade, vários programas cuidam de melhorar a universidade. A “escola aberta” e “a conexão de saberes” aprofundam a relação da escola e da universidade com movimentos e comunidades populares.

Todos sonhamos com uma escola que parta da realidade da juventude, se construa de amor e ofereça a uma juventude muitas vezes sem perspectivas e sem rumos na vida, motivos não só para viver, mas para ser pessoas boas e solidárias.

Gandhi dizia: “A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer com que desabroche o melhor de uma pessoa”. Toda educação deveria levar a pessoa a assumir a consciência de sua dignidade humana e do seu papel de sujeito e não de objeto na construção da sociedade. É certo que vivemos em um mundo no qual os governos são incapazes de acabar com a fome e a miséria de multidões, mas empregam milhões do dinheiro público para salvar bancos falidos e grandes empresas, vítimas de esquemas desonestos. Entretanto, apesar de tudo, as políticas públicas existem e são fundamentais. Elas têm sido aprimoradas, mas não bastam. A escola precisa ser assumida por todos os cidadãos, como algo que pertence a todos e não somente ao governo ou ao/à diretor/a do estabelecimento. Este processo de apropriação da escola por parte de toda a comunidade local é essencial para a educação da juventude, integrando-a na realidade. É este processo que possibilita a escola assumir e até promover a educação a partir de uma verdadeira diversidade cultural. As tantas escolas que, por todo o Brasil, são bilíngües (ensinam em português e na língua indígena da comunidade), assim como as que se inserem nas culturas afro-descendentes e ensinam a história da África e das comunidades negras no Brasil mostram a riqueza a que se pode chegar. Mais dificilmente, a evasão escolar se dá nestes estabelecimentos.

Para quem tem fé e vive uma busca espiritual, o compromisso com a educação faz parte da missão de testemunhar o amor de Deus por todos os seus filhos e filhas. assim como o de colaborar para que todos, jovens e adultos, participem da ação criadora de Deus, ao transformar este mundo em uma sociedade mais justa e em comunhão de respeito e amor com todo o universo.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
www.empaz.org/







VELHO AMIGO
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


A última vez que o vi você saiu correndo pelo corredor lateral.

Havia uma conduta firme que tinha sumido do seu comportamento nos últimos dias.

Sua postura em nenhum momento estava hesitante, seus passos pareceram mais firmes do que o normal.

Acho que aquela generalização sobre a melhora anterior a morte que nós humanos costumamos definir também se aplica a vocês.

Não vi seu semblante antes de ir e quando pedi que voltasse com você para que te observasse mais uma vez, ninguém me ouviu.

Para tornar a despedida menos dolorosa eu me virei e deixei que as lágrimas rolassem silenciosas.

Algumas pessoas conseguem transcender os sentimentos por um animal. Eu sou uma delas.

Quando eu ganhei você tinha pouco mais de 8 anos e ao te ver no fundo da caixa eu te achei feio.

Descobri que a beleza não é essencial e que um bichinho de pêlo ralo pode ser seu melhor amigo mesmo quando arrasta suas bonecas pela casa.

Não me arrependo em ter acordado de madrugada para preparar algo para você comer, o problema era que você não queria dormir depois e eu tinha aula no dia seguinte.
Seu jeito desajeitado, seus escorregões na lajota azul, era engraçado ver você andar tropegamente.

Um dia você aprendeu a caminhar, a correr pelo quintal, a pular. Você cresceu e ficou maior que eu.

Passaram-se os anos e ao contrário de tantos você continuou uma eterna criança.
Daquelas com um coração enorme, que não guardam rancor de nada.

Seu jeito carinhoso, brincalhão isso não vou esquecer nunca.

O olhar terno.

A mania de morder tudo o que via pela frente, até pedra.

Sua gula insaciável, seu latido estrondoso.

Amigão cê vai fazer falta.

Não é nada fácil se despedir de alguém que viveu 14 anos em prol de me fazer sorrir....

*** Ao meu cachorro Pluto que foi leal a mim durante toda a sua vida.

Obs: Imagem enviada pela autora.







Texto de WALTER CABRAL DE MOURA
(wacmoura@nlink.com.br)


Que se cumpra teu destino,
menino!
Ou pensas que imagina
o girino
um dia tornar-se sapo?

Querias que a ovelha soubesse
que enquanto seu pêlo cresce
já se pensa em amanhã
tecer casaco de lã?

E se a lagarta indolente
pudesse, numa mutreta
descobrir antecedente
que vai virar borboleta?

Talvez os rios pudessem
dar um jeito de parar
se a caminho já soubessem
que estão indo para o mar!

Por isso tudo, menino
anda calmo por aí
faz em paz o teu xixi
e que se cumpra o destino!







AGORA NÃO DÓI MAIS
Rivkah Cohen


Esse pássaro não estava aí
posicionado de forma tão bonita
a inspirar o poema,
a incitar o tema
ou era eu
que não o via?

E essa fumaça
que espessamente colore?
Será que eu ignorava, só passava
levando o meu olhar aturdido
e tudo que dele recorre?

O que ocorreu comigo
que fez com que
eu me depare com a beleza
te sinta e te veja,
pássaro bonito?

Até parece
que com o poder de uma prece
tudo que era ruim
ficou lá para trás
e hoje bailo, brinco
e como é bom sentir
maravilhosamente essa Paz!

É..
enfim aprendi
que longe
é um lugar que não existe
e agora não dói mais..


Obs: Imagem da autora.







Texto de DJANIRA SILVA
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


No caminho da serra existia uma pedra. Era bonita devia ter um nome. Quis saber por que não tinha. Perguntei, ninguém sabia. A mãe disse, não sei, à avó, também não, ao pai não tive coragem de perguntar.
Fui à Igreja, muitas vezes, e muitas vezes perguntei ao padre. Ele também não gostava de criança.
Perguntei ao espelho, contou-me uma história, pediu segredo. Guardei tão bem guardada que em algum lugar da alma a esqueci.


Obs: Texto retirado do livro da autora – Memórias do Vento







VITALINO
E O BARRO DO GÊNESIS
Sebastião Heber (*)
shvc@oi.com.br




O mestre Vitalino de Caruaru, PE, está completando 100 anos – nasceu em 10 de julho de 1909 e faleceu em janeiro de 1963. Mas sua obra continua viva, testemunhando em barro a vida do nordestino. Ele se liga à matéria-prima que sempre impressionou todo homem e toda mulher, o barro. É como se a pessoa se transportasse inconscientemente àquela vocação-apelo do Criador no livro do Gênesis :”Lembra-te homem que és pó e em pó te hás de tornar”.

Quem foi criança no interior, lembra-se que os brinquedos eram basicamente de barro: cavalinhos, casas, bois, vacas, etc. Desse modo, Vitalino, desde os seis anos de idade, estendeu o brinquedo de criança para testemunhar no barro, o “modus vivendi” do nordestino – podemos falar em retratar no barro os aspectos mais marcantes da vida do seu povo. Tudo era resultado das experiências de uma infância no campo aliada àquela da modelagem no barro, que executava construindo miniaturas de animais e louça de brincadeira, ou seja, louça utilitária em forma de bichinhos, de paliteiro, de mealheiro, de farinheiro. E tudo isso, alem de ser um dom, ele aprendeu com a mãe que era louceira. Ela deixava as sobras de barro para ele dar asas à imaginação e as mãos livres para o ofício criativo de um elemento ancestral na história das culturas que é o barro.

Ele nasceu na austeridade do Sítio Ribeira dos Campos e de lá saiu em direção do Alto do Moura,bairro de Caruaru, local marcado pela presença de oleiros, do rio e de barro, à disposição daqueles artesãos. Essa localidade usufrui, desde então, as benesses conquistadas pela fama mundial do ceramista. Nessa localidade existe a casa em que ele viveu e trabalhou até a morte e se tornou um museu dedicado às suas obras de arte que retratam o jeito de viver do mestre caruaruense.

A partir dos anos 30, o artista direcionou sua inventividade para “as peças de novidade”, ou seja, a construção de grupos de figuras humanas que reproduziam o cotidiano e diferiam do que se fazia em cerâmica. Foi na condição de fiel observador do cotidiano da vida do povo, dos ciclos vitais da humanidade, os costumes, crenças, tudo enfim que caracterizava o povo nordestino serviu para como esteio para as mãos hábeis do ceramista transformarem o barro em arte.

O livro do Gênesis, numa grande parábola sobre a Criação, coloca a Deus Criador como o Grande Oleiro que molda da matéria primeira o homem “à sua imagem e semelhança”.Esse livro reflete um estágio da humanidade no qual o barro era o elemento importante para aquele grupo histórico-cultural. Tudo era feito de barro. A obra conclusiva da Criação foi feita dessa matéria. E é nela que o Criador infunde o seu sopro, o seu espírito - e dá vida ao barro tornando-o pessoa humana.

O Bispo D. Helder Câmara, que este ano também completa 100 anos de nascimento, um dia disse que “Vitalino era o mestre de todos os que trabalham no barro no Nordeste. Deus continua a inspirar tantos outros seguidores dele, e outros criadores para continuarem a sua obra. É, de fato, participar do Gênesis, é chegar em pleno ato da Criação, já agora do homem, continuando a Criação de Deus”.

S. Francisco, sintonizado com todas as criaturas, no seu “Cântico do Sol”, não se esqueceu da terra, cantada como elemento ... :
”Louvado sejas meu Senhor,
Por nossa irmã e mãe terra,que nos alimenta e governa,
E produz variados frutos
E coloridas flores e ervas”.
Dessa forma, o Mestre Vitalino, e todos os que modelam o barro em Maragojipinho, e em tantos outros recantos, continuam a grande sinfonia da Criação.



(*) Professor Adjunto de Antropologia da UNEB, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do IGHB ,do Instituto Genealógico e da Academia Mater Salvatoris







PADRE, PRESBÍTERO, PASTOR, MINISTRO
D. Demétrio Valentini (*)



O Cardeal Martini, um dos homens de Igreja mais lúcidos hoje, propôs recentemente a realização de um novo concílio ecumênico, para tratar de três temas centrais para o futuro do cristianismo. O primeiro em torno da inculturação, para encontrar um novo patamar de diálogo do Evangelho com as grandes culturas e religiões no mundo de hoje. O segundo seria o ecumenismo, para um novo relacionamento entre os cristãos. E o terceiro seria sobre o ministério, para uma nova estruturação dos serviços internos da Igreja. Portanto, um novo diálogo com o mundo, um novo entendimento entre os cristãos, e uma nova organização interna na Igreja.

A assembléia da CNBB, reunida nestes dias, está abordando, de leve, o terceiro dos grandes temas sugeridos pelo Cardeal Martini. Está renovando as orientações para a formação dos presbíteros. Trata-se da formação dos padres, como o povo os chama.

As atenções de todos os bispos, nesta assembléia, se voltam para este ministério específico dos padres, sem analisar nem questionar o corpo bem mais amplo do conjunto de todo o ministério eclesial, que abrange desde o ministério do papa, dos bispos, dos presbíteros, dos diáconos, e também dos diversos ministérios leigos que podem ser exercidos, na perspectiva de uma Igreja toda ministerial.

Portanto, é uma abordagem com limites bem determinados, incidindo sobre uma proposta prática e concreta, de valorização deste ministério por uma aprimorada formação dos que o assumem.

Na análise da natureza eclesial deste ministério, o documento ora em estudo na assembléia, constata a diversidade de nomes que designam as pessoas que exercem este ministério. São chamados de padres, de presbíteros, de ministros, de pastores. Todos nomes para designar a mesma pessoa.

O documento constata que cada um desses nomes enfatiza um aspecto deste ministério com significação tão variada. É padre porque exerce uma paternidade em relação à comunidade. É presbítero, como foi chamado nos inícios da Igreja, porque possui maturidade, fruto de sua experiência da vida. É ministro, porque está a serviço da comunidade e age em nome de Cristo. E sobretudo pode ser chamado de pastor, a figura bíblica que melhor espelha a missão de cuidar da comunidade como o pastor cuida do rebanho.

Portanto, uma identidade muito rica, que justifica esta diversidade de nomes, com os quais se tenta expressá-la.
Diversos nomes, para uma mesma função, para um mesmo ministério. Diversas palavras, para uma realidade complexa, concentrada numa mesma pessoa.

Mas aqui a reflexão sobre o ministério na Igreja poderia tomar outra direção, a partir da diversidade de nomes com que o padre é designado. Ao contrário de reforçar as atribuições para uma mesma pessoa, esta diversidade de nomes pode sugerir a distribuição deste ministério de maneira diversificada e desconcentrada, de tal modo que ele poderia ser repartido de modo a envolver outras pessoas que poderiam exercer este mesmo ministério de maneira diferente, segundo a diversidade de circunstâncias e de acordo com as necessidades concretas de cada situação.

Isto iniciaria uma revisão em profundidade de todo o conjunto do ministério na Igreja, levando em conta os critérios que norteiam toda a iniciativa ligada à herança confiada por Cristo, isto é, a fidelidade no essencial, e a liberdade nas circunstâncias.

Em síntese, ao contrário de acumular nomes para uma mesma função e para as mesmas pessoas, repartir o ministério, de maneira diversificada, para outras pessoas, em vista do atendimento mais adequado às necessidades da comunidade. Assim, libertando-se de formas fixas, a Igreja ficaria mais fiel a Cristo, e as comunidades melhor servidas.


(*) www.diocesedejales.org.br








O BÊBADO E AS FLORES
João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Esmaguei margaridas em minhas mãos.
Eu estava bêbado,
Eu não sabia.

Muitas pensaram
Que eu estava louco,
Eu não sabia.

Amanhã,
Estarei lúcido nos campos,
Colhendo em tuas mãos
Outras rosas mais puras,
Outras rosas tão puras.

Chorei,
Eu estava bêbado,
Eu não sabia.

Bem que poderia ter magoado rostos,
Magoado corações,
Eu estava bêbado,
Eu não sabia.


Obs: Publicado no Diário de Natal







A GUERRA CONTINUA......
Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)



A minha
A tua
A nossa
A deles
São tantas guerras
Precisamos de muita paz

Precisamos falar das guerras
Dos conflitos internos e externos
Entre povos de nações diferentes
Entre marido e mulher
Entre pais e filhos
Entre vizinhos
Entre colegas de trabalho
Entre eu e você
Entre você e ele
Entre eu e eu

Precisamos promover a paz
No mundo
Na rua
No trânsito
No trabalho
Na família
Dentro de nós

A guerra continua...
Até quando? Não sei
Se vejo, se leio, se sei....sofro, encho os olhos de lágrimas, a alma fica inquieta.
Não tanto quanto uma guerra dessa dimensão mereceria.

Me assusta a guerra
Mas confesso e pode ninguém me entender
Me assusta muito mais as guerras diárias
De índole, da perversão, da maldade por impulso, do mau humor, dos rompantes....
Me assusta o político que rouba do pobre por ganância
O empresário que não paga impostos
O lojista que não dá nota fiscal e me olha atravessado quando peço e me trata mal
As brigas no trânsito
Os motoqueiros que se jogam na frente dos carros, andam na contra mão e se acham certos
Os motorista que de propósito assustam os ciclistas, não respeitam o pedestre
A moça loirinha e linda que desceu comigo no elevador, não respondeu meu bom dia e deixou o portão quase bater em mim
Me aterroriza quem bebe embriagado e mata vidas
Adultos que molestam crianças
Funcionários de escolas públicas que furtam merendas
Muitas guerras diárias me assustam
Inclusive a que travo comigo na tentativa de ser melhor e me vejo repetindo os mesmos erros, a mesma insensibilidade, o mau humor, a minha agressividade.....
Me assusta a minha falta de sensibilidades para tantas desgraças do mundo

A guerra continua...
Se podemos pedir paz, vamos pedir
Se queremos postar da guerra, sermos mais humanitários, mostrar sensibilidade, é mais um gesto que se soma a tantas outras ações – parabéns

Mas se convido vocês para relaxarem. Relaxem, aproveitem. Penso que ajuda na campanha da paz. Interna e das relações. Não me critiquem por causa da guerra.

Pelo menos esses momentos me ajudam nas minhas guerras internas, nas busca de ser melhor, de valorizar a vida, em busca da paz interior e dos ambientes por onde passo.

Não pensem que é fácil, nem que consigo sempre. Mas tento. Se não consigo levar a paz, me esforço muito mais para não promover a guerra.


Obs: Foto enviada pela autora ( Rio de Janeiro)







A PACIÊNCIA SE ESGOTA...
Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


Pensar Amazônia, além de florestas, minérios e biodiversidade é também lembrar 12% da água potável do planeta. Não daria para se imaginar que em plena Amazônia, numa cidade cercada de águas pelos lados, pelo subsolo e pelos ares, como Santarém no Pará, 30 mil pessoas estivessem sem água potável nas torneiras. Mas é o que esta acontecendo na cidade que tem dois grandes rios à sua frente.

Sábado passado, após duas semanas sem águas da companhia de saneamento e água e sem certeza de quando o serviço vai funcionar, a paciência se esgotou e uma marcha com latas vazias, cartazes e gritos de indignação ecoaram pelas ruas do bairro sem água nas torneiras. Ao final da marcha houve uma audiência pública com alguns políticos e lideranças populares, mas sem representantes da prefeitura, responsável pelo serviço de água e sem representantes do Estado, responsável pela concessionária do serviço da Cosanpa.

A população sofrida deu um ultimato às autoridades: ou tomam providência imediata, ou decisões mais severas serão tomadas pela população espoliada pela Cosanpa. Assim está acontecendo na Amazônia – as autoridades cívicas e as populações decidem pela democracia direta – a pressão organizada.

Lá onde a sociedade civil ainda não despertou, a melhoria de vida não acontece, os oportunistas se enriquecem descaradamente e a democracia representativa perde sua identidade. Se de um lado as autoridades públicas perdem credito, por outro lado, a sociedade civil vai crescendo em sua consciência política, exigindo o cumprimento de seus
direitos. É a nova democracia tomando corpo na Amazônia.





OLHOS NEGROS E PROFUNDOS
Maria Clara Lucchetti Bingemer (*)
(www.users.rdc.puc-rio.br/agape)




A primeira imagem que me veio ao coração quando recebi a notícia tão brutal de sua morte foi a de seus olhos: negros, profundos, perscrutadores, ansiosos por captar a realidade e ver mais além dela, em seu núcleo mais profundo.

Conheci Clarice Abdalla muito jovem, ainda namorada de Leopoldo. Seus sogros, Marília e Aluísio, eram amigos de muitos anos, engajados em muitas lutas comuns. Conhecia Leopoldo do Colégio Santo Inácio, da Comunidade de Vida Cristã da qual participava. Clarice deu entrada com naturalidade em meu coração, onde já tinham espaço reservado tantos de seus mais queridos e próximos.

No casamento de ambos, lembro-me do saudoso padre Ítalo, de Copacabana, o apóstolo do Morro dos Cabritos, tão prematuramente falecido. Com entusiasmo e vigor, ele testemunhava o sacramento do amor do qual aqueles dois jovens eram ministros. Foi uma tocante celebração eucarística, simples como Clarice e Leopoldo e, por isso, mesmo bela.

Tempos depois reencontrei Clarice. Na PUC, ela começava sua intensa atividade no Departamento de Comunicação, que também era o meu, antes de entrar na Teologia. Eu a via sempre ativa, trabalhadora incansável, olhando sempre transparente e direta com seus belos e profundos olhos negros.

Trabalhamos juntas no Centro Loyola, ela já como assessora de imprensa da Universidade, apoiando e divulgando todas as iniciativas que tomávamos. Estivemos juntas nos inícios do projeto Amaivos, portal da internet que cresceu como o grão de mostarda do Evangelho e hoje abriga pássaros em seus ramos frondosos.

Há um ano e meio, Clarice veio procurar-me para uma conversa particular no Decanato. Desejava fazer a experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio na vida diária e gostaria de saber se eu poderia acompanhá-la. Aceitei imediatamente, muito alegre de poder testemunhar o trabalho do Espírito Santo na vida daquela jovem e dinâmica mulher.

O que se passou durante um ano foi muito além de qualquer expectativa que eu pudesse ter. Aliás, sempre acontece assim, sendo Deus muito mais criativo do que nossa pobre imaginação, surpreendendo-nos sempre com o poder de sua graça. Clarice mergulhava fundo e se entregava inteira nos modos de orar propostos por Santo Inácio. Sua docilidade ao Espírito era impressionante e se deslumbrava com cada detalhe que descobria e assimilava.

Eu sentia que meu papel era absolutamente secundário naquele colóquio, onde o Criador dialogava amorosamente com sua criatura, conduzindo-a com carinho pelos caminhos que desejava. E ela prosseguia, com grande ânimo e generosidade. Ao terminar cada uma das etapas, vinha sempre trazer-me um presentinho, agradecer, com o coração transbordando de alegria e gratidão. Agradecia eu o bem que me fazia acompanhá-la e seguíamos em frente.

Clarice terminou seus Exercícios em outubro passado. Já antes de terminar havia sentido o desejo de integrar uma comunidade inaciana. Procurou uma Comunidade de vida cristã e ali entrou. Estava feliz, sentia-se crescer, cheia de desejos de servir.

Quando soube da notícia de sua morte, soube também, imediatamente e no mesmo instante, que na verdade estava madura para ir ao encontro daquele que com tanto carinho a conduziu na experiência espiritual recentemente realizada. O mistério que aqueles olhos negros contemplaram com tanto amor e tanto fruto agora se desvela plenamente diante dela, como plenitude de vida que não termina.

Os papéis se inverteram, querida Clarice. Agora é você quem me acompanha, é você que intercede por mim, por nós, estando como está já plenamente em comunhão com Aquele que a criou, a redimiu e a vivificava com seu Espírito a cada dia. Olhe por nós, por seu marido e filho, que sentem tanto sua falta. E por sua querida Universidade, que sem você se sente saudosa, mas ao mesmo tempo acompanhada. Você que foi tão viva na história, agora é viva em Deus, para sempre.


(*)Teóloga e Decana do CTCH







Nostalgia
LugCosta


Temos de ter cuidado com a nostalgia,
pois ela é perigosa demais,
sobretudo por ser silenciosa
e vai corroendo a alma e carregando a nossa força...
escondendo em seus sinistros porões
as poucas possibilidades de reação.
As recordações tomam formas concretas
confundindo o mundo real do mundo imaginário.
É um mergulho suicida:
nos lança sempre mais no profundo do poço.


Obs: Imagem enviada pelo autor.







SINTONIA NECESSÁRIA
Vilmar Locatelli
( vlocatelli@hotmail.com)



Se eu pudesse dizer-te
não me esqueceria de contar
o sonho que tive
esta noite

O céu não era belo
as estrelas mais que tristonhas não sorriam
para o mundo

A grande escuridão
invadiu os horizontes
e atrás dos montes
monstros ferozes
mostravam suas mãos

Não posso negar
chorei amordaçado
e as lágrimas estancadas
não conseguiam verter
sob o rosto frio
da inerte tristeza
que não era ainda vida

Pensei que estivesse
dormindo e sonhei
percebi que viajava
nos rastros da morte
mudei o curso da liberdade
e de verdade sonhei
beijando as flores sob o céu estrelado
achei a sintonia do amor
e amei.







PIO XI, O PAPA DE FERRO
Dom Edvaldo G. Amaral SDB (*)
(dedvaldo@salesianosrec.org.br)



“Qui frappe l´Action Catholique, frappe le Pape, et qui frappe le Pape meurt!” que seria algo assim como: “Quem fere a Ação Católica, fere o Papa e quem fere o Papa, morre!” Frase de Pio XI, o Papa da Ação Católica, que abriu ainda muito tímida a “a participação dos leigos no apostolado da Igreja”, como dizia a definição oficial. Nos idos do Papa Ratti, ainda estava distante a idéia de um protagonismo leigo na santificação das realidades temporais, que, três pontificados depois (Pio XII, João XXIII e Paulo VI), iria afirmar-se como doutrina por todos aceita, sobretudo depois do Concilio Vaticano II e as assembléias episcopais de Medellìn e Puebla.

Achille Ratti nasceu em 31 de maio de 1857 e foi ordenado sacerdote em Roma em 1879. Sólida e profunda formação intelectual, unida a enérgico senso prático, levou-o a dirigir duas das maiores instituições culturais da Igreja, a Biblioteca Ambrosiana de Milão e a Biblioteca Vaticana. Enviado representante pontifício em Varsóvia, na Polônia, foi ordenado arcebispo. Em 1921, ornado com a púrpura romana, foi arcebispo de Milão por alguns meses apenas, porque logo foi eleito sucessor de Bento XV no conclave de 6 de fevereiro de 1922.

Aí, mereceu realmente o título de Papa de ferro, ao enfrentar com intrepidez os três monstros do totalitarismo europeu do pós-guerra. Contra o fascismo, escreveu a carta em italiano “Non abbiamo bisogno” (Não temos necessidade) condenando as leis raciais e outros absolutismos da ditadura de Mussolini. Contra o nazismo, escreveu a carta “Mit brennender Sorge” (Com viva inquietação) condenando o anti-semitismo e o mito da raça ariana, superior às demais, e contra o comunismo ateu e materialista, promulgou para toda a cristandade a encíclica “Divini Redemptoris”. Encarou ainda a grande crise econômica de 1929, a guerra civil espanhola e as violentas perseguições aos cristãos na Rússia e no México. Foi o Papa das Missões e de Santa Teresinha, que constituiu padroeira das Missões e chamou-a estrela de seu Pontificado. Diz-se que ele passava noites indormidas, pensando na multidão dos homens, que não conhecem ainda Jesus Cristo. Seu pontificado marcou um desenvolvimento extraordinário da ação missionária da Igreja sobretudo na África e na América Latina. Foi o Papa de Dom Bosco que ele, como bibliotecário da Ambrosiana, visitou pessoalmente em seu humilde Oratório de Valdocco, passando alguns dias hospedado na casa do Santo dos meninos-de-rua da Turim da segunda metade do século XIX. Em seus discursos nas solenidades da beatificação e canonização do Santo, fez muitas referências elogiosas a esse encontro pessoal com S. João Bosco. Na Família Salesiana, é sempre chamado como o Papa de Dom Bosco. Contrariando os liturgistas da Cúria romana, determinou que a canonização do Santo da juventude ocorresse na Solenidade de Páscoa, 1º de abril de 1934, encerrando o Ano Santo do centenário da Redenção. Foi o primeiro Papa a falar ao mundo inteiro pelas ondas da Rádio Vaticana, inaugurada por ele com a presença do próprio inventor do rádio, Guilherme Marconi.

A morte súbita do Papa da Conciliação ocorreu no dia 10 de fevereiro de 1939, véspera do 10º aniversário do Tratado de Latrão, que criou o Estado da Cidade do Vaticano e pacificou as relações entre a Itália e a Santa Sé. Ele havia convocado os bispos italianos para uma solenidade especial no Palácio Apostólico. Após seu falecimento improviso, duas versões surgiram, desmentidas depois no pontificado de João XXIII: que ele pronunciaria naquele aniversário violento discurso, anulando unilateralmente os pactos lateranenses e que teria sido mandado assassinar pelo ditador fascista Mussolini. O discurso nunca foi divulgado e pareceu exagerada a suspeita de um assassinato no Palácio Vaticano.

Ao celebrarmos o 70º aniversário de sua morte, reverenciemos a memória do “Papa de ferro” e acolhamos o precioso legado de seu ensinamento e corajosa posição diante dos erros de seu tempo.


(*) Arcebispo emérito de Maceió







SUOR E LÁGRIMAS...
(resomar)


Há momentos de riscos e ousadia, (re)encontro e aconchego,
mistura de suor e lágrimas...

Há mudanças de caminho...
Ondas me tocam e busco o inesperado...
Abraço o inatingível nos intervalos do silêncio...
Enforco sonhos e desejos
e a perspectiva de partida se apossa da alma,
realidade desnudada...

Há passos no deserto dos sentimentos,
sombras em tuas palavras,
olhar enlouquecido em minha solidão...
Longa e dolorosa ausência...
Não te encontro dentro de mim...

Vago e indefinido amor!...


28.05.2003







GRAVISSIMUM EDUCATIONIS: 40 ANOS DEPOIS (PARTE V)
Luiz Moura
(lmoura.pe@uol.com.br)



Até a realização do Concílio, parece que a compreensão que se tinha de educação católica se confundia ainda com a escola confessional. Esta afirmação se fundamenta no fato de que o documento preparatório chamava-se escolas católicas. No entanto, o próprio Concílio corrigiu este equívoco ao modificar o título para educação cristã. Kloppenburg(1964) e Vasconcellos(1966) já observavam, nesta época, que educação e escola não se identificam e que a escola católica não é o único meio de educação cristã. Ao traçar a finalidade da educação, o Concílio assim se expressa: “a autêntica educação no entanto, visa o aprimoramento da pessoa humana em relação a seu fim último e ao bem das sociedades de que o homem é membro, e em cujas tarefas, uma vez adulto, terá que participar. (...) Há de dar assistência às crianças e aos jovens para desenvolverem harmoniosamente seus dotes físicos, morais e intelectuais, para adquirirem gradativamente um senso mais perfeito de responsabilidade, que há de ser retamente desenvolvido na própria existência por contínuo esforço e verdadeira liberdade, superados os obstáculos com generosidade e constância”. Nisto o Concílio foi grandioso pois ao conceituar educação visou o crescimento da pessoa e da comunidade onde ela se insere. No entanto, ao definir educação cristã, confunde a ação de educar com a ação de evangelizar: “educação essa que não visa apenas à madureza da pessoa humana acima descrita, mas objetiva em primeiro lugar que os batizados sejam gradativamente introduzidos no conhecimento do mistério da salvação e se tornem de dia para dia mais cônscios do dom recebido da fé; aprendam a adorar a Deus Pai em espírito e verdade, sobretudo na ação litúrgica; sejam treinados (conformentur) a orientar a própria vida segundo o homem novo na justiça e santidade da verdade; assim pois cheguem a constituir o homem perfeito, na força da idade que realiza a plenitude de Cristo e cooperam para o crescimento do corpo místico. Habituem-se(...) a contribuir para a transformação cristã do mundo na qual os valores naturais sejam assumidos na visão completa do homem redimido por Cristo e contribuam para o bem de toda a sociedade”


Terça-feira, Abril 21, 2009






A SACRALIZAÇÃO DA FUNÇÃO ALIMENTAR
E A 5ª FEIRA SANTA DOS CRISTÃOS
Sebastião Heber
shvc@oi.com.br



A 5ª feira Santa é um dia central na tradição cristã pois é revivida a instituição da Ceia Eucarística. “Tomando o pão, disse: ‘Isto é o meu corpo’ e tomando o cálice acrescentou:” Isto é o meu sangue. Tomai e comei, tomai e bebei”. Dessa forma, a teologia, especialmente a católica e as ortodoxo-bizantinas, circulam todo o seu patrimônio de fé em torno desse momento. E isso é tão marcante, que os anglicanos estão, nessa crença, mais próximos dos católicos do que da interpretação evangélica. É curioso que Lutero, de formação católica, acreditava na eucaristia como presença real durante a celebração da Ceia – ele chamava a essa crença de “in usu”, isto é, enquanto se celebrava a Ceia do Senhor, havia presença real, após a liturgia, passava o “efeito”. O protestantismo posterior se afastou dessa crença, mas há nele uma grande reverência à celebração do momento da Ceia.

É uma prática comum nas religiões o uso da comida como algo sagrado que se oferece à divindade e ao mesmo tempo é compartilhada por todos. Portanto, o alimento como oferenda ao Deus para alimentá-lo é uma forma muito antiga de se aproximar da divindade. Não é em vão que Gilberto Freyre, no prefácio do livro de Raul Lody, “Santo também come”, apresenta a cozinha do candomblé “como um espaço de culto tão sagrado quanto o peji”. De fato, no candomblé, tudo começa na cozinha e nada pode ser comparado à energia que emana das oferendas aos orixás.É por meio da alimentação comum dos santos e dos seus adeptos que as religiões têm assegurada a sua sobrevivência. Comer nos terreiros, é estabelecer vínculos e processos de comunicação entre homens, deuses, antepassados e a natureza.É preciso alimentar a divindade com o sacrifício para obter favores. Ninguém pode se apresentar ao seu Deus de mãos vazias.

Os sócio-antropólogos do final do século XIX e início do XX estudaram a dinâmica do alimento nas religiões. Durkheim, por exemplo,salientou que o banquete sacrificial cria comunhão não só entre as pessoas e os deuses, mas também entre os membros da tribo, pondo-se como um dos fundamentos da partilha e da coesão social..Mauss considerou o sacrifício a partir da distinção entre sagrado e profano, ressaltando a possibilidade de passar temporariamente ao mundo do sagrado através do rito sacrificial.

Na nossa sociedade ocidental, sociedade de consumo por excelência, o alimento é uma necessidade tão primária quanto o é para todos os outros povos, mas, pouco a pouco, vamos deixando de perceber a sua importância porque a satisfazemos quase automaticamente e sem esforço. Instaurou-se um hábito e um ritmo, por causa da nossa pressa, que separa as nossa refeições da dimensão sagrada que ela contém e que está bem presente nos povos de pequena escala. Para nós não é mais significativo afirmar que o alimento é importante, que é um elemento essencial para a vida. Atualmente, ninguém quer perder tempo fazendo comida. Tudo está à nossa disposição, sob as mais diversas formas: pré-cozido, pré-confeccionado, há tudo nos supermercados e nas lojas de importados, os selfservice é o que existe de mais prático e estão à disposição de todos. Somente o comer juntos, em certas datas, conserva ainda um certo valor, servindo para estreitar laços de amizade.

A refeição sacrificial teve na história das religiões um lugar de destaque e tem relevância nos diversos códigos religiosos. É realmente possível recuperar o valor simbólico do alimento na nossa sociedade? Na verdade, a racionalidade tem o poder de suprimir o lado simbólico da vida, a ponto de Hegel sustentar que o progresso do saber teria “exaurido o reservatório dos símbolos”, deixado pela tradição. É preciso admitir que , relativamente ao alimento,a sociedade hodierna conseguiu secar grande parte do depósito simbólico.

Das refeições totêmicas dos australianos, da homofagia do culto de Dionísio, dos sacrifícios védicos e dos banquetes das religiões de mistério, até a misteriosa Ceia cristã, a história se repete. O cristianismo celebra uma refeição sagrada e sacramental que os seus adeptos conhecem bem e que está no centro da sua vivência teológica. Inácio de Loyola dizia que “Cristo deve se tornar o nosso alimento, deve ser comido pelos cristãos, para se tornar remédio de imortalidade”. Gregório de Nissa confirma que “o Senhor se une ao corpo dos fiéis para que, através da união com o imortal, o homem também se torne partícipe da imortalidade”.

O sacramento da eucaristia mantém uma afinidade extraordinária com todas as refeições sacrificiais presentes na história das religiões.



Sebastião Heber. Professor Adjunto de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu. Membro do IGHB, do Instituto Genealógico e da Academia Mater Salvatoris.









SORRIR POR SORRIR?
É DIFÍCIL!
Rivkah Cohen


Não posso encobrir o que não se disfarça.
Essa contração no peito,
não é à toa, não vem de qualquer jeito,
não é de graça.......................!

Ela mesma se anuncia, como o ar,
o amanhecer com essa ventania!

Vem de forma translúcida, verdadeira,
sem usar máscara, sem ter medo.
Como quem não indaga,
não obedece o tema, muda qualquer enredo!

É visível, como quem conhece só as idas,
provocando esta fobia!

Quem dera numa fronteira fosse barrada
e com o poder da alquimia,
mudasse de onde inicia
e ficasse enclausurada!

Os momentos tristes
são como quem vive na lida,
não sente mais o calor do amor,
não se admira com a beleza do dia.
Como sorrir por sorrir, diga-me por favor!



Obs:Imagem da autora.







ENTRE A VERDADE E A MENTIRA
Padre Beto
www.padrebeto.com.br



Em uma mesma rua viviam os Millers e os Bergsons. As duas famílias eram muito amigas. As crianças haviam crescido juntas, as esposas visitavam-se todas as tardes e os senhores Miller e Bergson eram parceiros no jogo de tênis. Tudo caminhava bem até Hitler subir ao poder e o nazismo se tornar a ideologia do Estado alemão. A partir daí, os Bergsons, juntamente com outras famílias judias que moravam na Alemanha, começaram a sofrer todo o tipo de perseguição por parte dos nazistas. Toda a atmosfera anti-semita, porém, não afetou a amizade entre Millers e Bergsons. Em um determinado dia, os Millers ouviram que muitos judeus estavam sendo deportados para Auschwitz onde deveriam ser mortos. Assim, a família alemã resolveu esconder seus amigos Bergsons em sua casa até estes encontrarem um jeito de sair do país. Depois de algumas semanas, um oficial alemão bateu à porta dos Millers. O senhor Miller atendeu o oficial com muita cordialidade. Este, ao entrar na casa, foi logo ao assunto: "O senhor possui uma ótima reputação. É visto como uma pessoa honesta em todo o bairro, por isso eu vim lhe perguntar se o senhor tem alguma notícia sobre a família Bergson. Por acaso, alguém de sua família sabe se eles viajaram?" O honesto senhor Miller respondeu com certa admiração: "Os Bergsons? Faz algumas semanas que não vemos ninguém na casa ao lado!"

Para se dizer "verdade" ou "verdadeiro" em hebraico utiliza-se a palavra "emet" que significa, ao mesmo tempo, confiança. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, ou seja, são fiéis. Aqui a verdade está intimamente relacionada com a espera de que aquilo que foi prometido irá cumprir-se ou acontecer. Portanto, em hebraico, a verdade tem a ver com o futuro, com a concretização de algo que deve ser realizado. "Amém", que significa "assim seja", possui, por exemplo, sua origem na palavra "emet". Os gregos, por sua vez, utilizavam para designar a verdade a palavra "aletheia" que significa "não-oculto", "não-escondido". O verdadeiro é aquilo que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito. Aletheia, portanto, está relacionada ao presente, ao que as coisas são. Já a palavra latina "veritas" se refere aos fatos que já aconteceram, ou melhor, à narração exata dos fatos acorridos. A verdade em latim é um olhar para trás. A nossa definição atual de verdade constitui-se em uma síntese destas três concepções: ela se refere às coisas do presente (aletheia), à narração dos fatos passados (veritas) e à confiabilidade e fidelidade do futuro (emet). Uma das condições básicas para dignidade humana é possuir a característica da veracidade, ou seja, ser verdadeiro significa ter uma visão precisa da realidade, ser coerente com ela e manter-se fiel transmitindo confiabilidade. Não manter a verdade consiste em um declínio de vida e da própria dignidade, afirma Tomás de Aquino. As relações humanas (convivência, amizade, negócios...) tornam-se comprometidas a partir do momento que a veracidade deixa de estar presente. A mentira é um poderoso veneno em nossa dimensão interpessoal.

Veracidade não significa, porém, dizer a todos tudo o que se pensa e muitas vezes para se fazer um bem é necessário ocultar a verdade. Portanto, quando nos questionamos sobre a revelação da verdade, não podemos esquecer que a "veracitas" deve estar sempre acompanhada de outras virtudes como, por exemplo, a prudência, a discrição, o amor e a justiça. Muitas vezes, a resposta para a insistência alheia é a discrição. "Meu amigo tem um amigo, o amigo do teu amigo tem outro amigo... Portanto, seja discreto!" (Talmud). Ao sermos simplesmente transparentes corremos o risco da "veritas homicida", da qual nos fala Agostinho, ou nos vemos contagiados pela "verdademania", ou seja, a verdade a qualquer preço muito criticada por Kant. Existem situações que fazem com que a verdade seja tão condenável quanto a mentira, ou seja, as duas alternativas nos levam a um grande prejuízo. "Sobre a mentira e a verdade/ desabam as mesmas penas/ apodrecem nas masmorras/ juntas, a culpa e a inocência" (Cecília Meireles). Tomás de Aquino, apesar de não oferecer uma solução clara para o assunto, explica que é permitido, de uma maneira prudente, disfarçar ou encobrir a verdade. A omissão da verdade ou a parcial revelação da mesma torna-se uma alternativa ética quando valores como a dignidade e a própria vida humana estão em jogo. Portanto, para possuir honestidade, não basta a transparência, se faz sempre necessário o questionamento: qual o sentido de minha honestidade? Ela está servindo a quem? Pôncio Pilatos, o procurador romano que estava no governo da Judéia, ao interrogar Jesus perguntou-lhe o que era a verdade. Segundo o Evangelho de João, Jesus se silencia diante da questão.








Texto de DJANIRA SILVA
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/




Na voz do sino morre o silêncio. No apito da fábrica a voz do homem. Invasão de um mundo perturbado. O homem precisa dormir para sobreviver.
Dezembro das festas, das ruas, dos sons e das cores. Barracas, roda gigante, carrossel e barquinhos. O mundo árvore de Natal. As chuvas finas de novembro, caíam, dizia a mãe, para vestir o mundo para as festas. O presépio, a praça. Santos vestidos de gente. Gente com cara de santo espera a missa.
Entre as barracas e os brinquedos do parque eu esperava, esperava sempre. Se me perguntassem o quê eu não sabia. Desejava ser gente grande para deixar de esperar.
Noite feliz... noite feliz, o som caia da torre no meio da praça, nos meus ouvidos, no coração. Escreveu por linhas certas, certas lembranças. Até hoje não consigo apagá-las. Noite feliz...
Quis dar um presente a minha mãe. Dar o quê, se eu não tinha nada? No jardim de d. Argentina havia rosas. Minha mãe gostava de rosas e esperava a missa. O mundo inteiro esperava.


Obs: Texto retirado do livro da autora - Memórias do Vento.







FUTEBOL NA TV
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com





Imagine a cena...
Um casal sentado na sala assistindo um jogo do Flamengo com um desses timezinhos do interior valendo a classificação para o campeonato sei lá do que.
- Amor.
- Oi.
- Eu tô carente. Faz um cafuné.
Ele passa a mão pela cabeça dela, e embaralha os cabelos, uma atitude que nem de longe lembra um carinho.
- Pronto.
- Isso foi um cafuné?
Ele com os olhos vidrados na televisão.
- Foi.
Ela fica pensativa. Minutos depois ...
- Me dá um beijo.
Ele continua atento ao jogo.
- Ei!!! Um beijo.!!!
Ele vira para o lado e dá uma bitoca.
- Só isso?
Ele a beija. Ela de olhos fechados e ele com os olhos no último lance.
- Eu quero mais!!!
- Depois.
- De língua. Agora!!!
Ele dá um beijo rápido, estranho.
- Pronto. Agora chega! Deixa eu assistir ao futebol!
Ela se levanta desapontada do sofá.
- Ei.
Ela volta.
- O que é?
- Aproveita que você está em pé e trás uma cerveja pra mim.
Um sorriso irônico desponta nos lábios dela.
- Pode deixar amorzinho.
Ela pega aquela cerveja lá do fundo do congelador. A mais geladinha. A preferida dele. Rapidamente arquiteta um plano no espaço entre a geladeira e a sala.
- Amorrrr.
- Diga minha princesa. Cadê minha cerveja?
Ela mira o alvo e arremessa.
- Aiiii!!! Tá louca?
- Você não pediu a cerveja? Então? Tá aí.
- Precisa arremessar com tanta violência?
Ela volta para a cozinha e retorna como uma tijela de pipoca, uma barra de chocolate, uma lata de refrigerante e um pacote de batata fritas.
Ele lança um olhar de relance, um tanto assustado.
- Você vai comer tudo isso?
- Não eu trouxe para enfeitar a sala, não tá vendo?
Ele sorri diante da resposta ácida.
- Você vai engordar. Vai ficar uma branquela gorda e feia.
- E daí?
- E daí, eu é que não vou andar com uma baranga do meu lado.
- Engraçadinho. Não esqueça do que prometeu ao padre ‘até que a morte nos separe’.
- É mas não é ele que vai ter que aturar um filhote de dragão.
Irritada ela levanta e despeja a pipoca sobre ele.
- Você ta de TPM eu sabia!!!!
- Você é um bruto isso sim. Ingrato. Insensível. Onde eu estava com a cabeça quando fui casar com você!
Intervalo. Entra os comerciais.
- Amorzinho, Eu Te Amo. Fica calma que isso vai passar.
- Arrrrrrrhhh!.


Obs: Imagem enviada pela autora.







TEXTO de WALTER CABRAL DE MOURA
(wacmoura@nlink.com.br)



Um gato desbravador
adentra a primeira vez
recém-construído prédio.

Sobe a rampa lentamente
explora o ambiente
observa, escuta, sente
por assim dizer, indaga...

Aqui se senta, estaca
(eita gato bandoleiro)
enfim se coça, que tédio.

Prossegue sua viagem
errando pela garagem
no ermo desabitado
do novo prédio do lado.







IDENTIDADE CRISTÃ
D. Demétrio Valentini (*)



Nos primeiros tempos da Igreja, os novos cristãos, batizados na páscoa, usavam as roupas bancas durante toda uma semana, até o domingo seguinte. Era neste dia, portanto, como sendo hoje, que voltavam a usar as roupas comuns do cotidiano da vida, como todo mundo.

O símbolo das roupas brancas, conservadas durante toda uma semana, era muito eloqüente. Simbolizava a condição nova, que resultava do batismo, pelo qual eles tinham renascido para a vida de filhos de Deus e membros da Igreja, de pleno direito.

Mas as vestes brancas, usadas ao longo de toda uma semana de trabalho, lembravam também o compromisso assumido no batismo, de viver neste mundo com critérios novos, segundo os valores do evangelho, inserindo-os na realidade cotidiana.

Este compromisso era duplo. De um lado, o desafio de conservar limpas as vestes brancas, no embate cotidiano da vida, isto é, de conservar os valores da fé, e guiar sua vida por eles.

Por outro lado, o desafio de conviver com as outras pessoas que não eram cristãs. A condição nova de batizados e de cidadãos do Reino, não nos impede sermos ao mesmo tempo cidadãos do país em que vivemos neste mundo. O evangelho não inibe a vida humana, ao contrário, a ilumina com motivações novas, e a impulsiona com o vigor dos seus valores.

Celebrada a páscoa, retomadas nossas vestes comuns, não vamos esquecer o compromisso cristão de sermos sal da terra e luz do mundo. Nossa presença de cristãos é despretensiosa de privilégios, mas comprometida com valores. O próprio nos anima a sermos eficazes e discretos na sociedade em que vivemos. No dia da ressurreição ele mesmo se apresentou a Maria Madalena sob a aparência de um jardineiro. Enxergar seu mestre com roupagem diferente, humana, simples, deve ter feito parte da surpresa de Maria.

Aos discípulos de Emaús, Cristo se mostrou sob a forma de um viandante. Com estes paramentos da vida real foi celebrada a primeira eucaristia do ressuscitado, quando então os olhos dos discípulos se abriram e reconheceram que era o Senhor.

Pelo testemunho que damos, seremos reconhecidos como discípulos do Mestre que vestiu nossa roupagem humana para inserir em nossa vida a força do seu amor divino.


(*) (www.diocesedejales.org.br)





CNBB EM RITMO DE PÁSCOA
D. Demétrio Valentini (*)



De 22 de abril a primeiro de maio a CNBB estará realizando sua 47ª. Assembléia anual. A data é determinada pela Páscoa. Nesta época, em cada ano, os bispos vêm chegando das 270 dioceses do Brasil, para o seu encontro de dez dias.

Observadas as circunstâncias, é o tempo mais propício para reunir os bispos. Em primeiro lugar, porque na páscoa cada bispo se encontra em sua respectiva diocese, onde sua presença é indispensável para a realização das grandes celebrações que lhe cabe presidir por dever de ofício. Se é para convocar os bispos, é na páscoa que os encontramos em casa.

Mas a assembléia da CNBB em tempo de páscoa não é ditada só pela conveniência de época. A reunião de todos os bispos tem uma evidente semelhança com os acontecimentos do dia da ressurreição.

A cruz tinha desnorteado os apóstolos, e o germe da dispersão já corroia os vínculos da comunhão ente eles. No primeiro dia após o sábado, alguns já estavam se mandando de volta às suas antigas moradias, curtindo a frustração de suas esperanças, como os discípulos de Emaús.

Mas a notícia da ressurreição aos poucos foi de novo congregando os discípulos, tecendo entre eles um novo compromisso e uma nova consciência de serem depositários de uma causa que era preciso assumir e levar adiante. A ressurreição, na verdade, foi dando firmeza à Igreja, que a partir daquele dia foi se consolidando, e foi tomando consistência, toda ela derivada de Jesus Cristo, que então começou na verdade a ser compreendido na sua dimensão divina e na sua missão salvadora.

Assim continua acontecendo hoje. E´ ainda em Cristo Ressuscitado que a Igreja busca força para se reconhecer e para assumir a missão a ela confiada. Por isto, é muito significativo que depois da Páscoa os bispos se congreguem em assembléia, para de novo se sentirem reunidos em torno de Cristo, e dele receberem a paz, o perdão e a força do Espírito para cumprirem a missão, como aconteceu com os apóstolos.

Se olhamos a temática central da assembléia deste ano, percebemos ainda os reflexos de Aparecida. Aquela reunião representativa de toda a Igreja da América Latina vai se confirmando sempre mais como paradigmática, como evento revelador da atuação do Espírito de Deus, por ter captado a essência do Evangelho, de maneira sintética e dinâmica, expressando-o pelo binômio “discípulos e missionários de Jesus Cristo”. De fato, a atividade de Jesus pode ser sintetizada nestas duas palavras: ele formou discípulos, que se transformaram em missionários.

Nesta dupla dimensão, podemos identificar ainda hoje a tarefa da Igreja. Ela também precisa formar discípulos, para transformá-los em missionários.
Pois aí está o tema central desta assembléia: a formação dos presbíteros. Mas não só eles. Todos os membros da Igreja precisam se tornar discípulos de Cristo. Por isto o outro tema, a iniciação cristã, destinada a todos.

Mas não basta formar discípulos. Se eles não assumem a missão, é vã a sua formação. A assembléia estará atenta a esta dimensão indispensável, analisando propostas concretas da “missão continental”, que Aparecida propôs.

Numa de suas aparições como ressuscitado, Jesus surpreendeu os discípulos pescando no mar da Galiléia. Era de madrugada. Nada tinham apanhado durante a noite. Sob a palavra de Jesus, lançaram de novo a rede, que se encheu de 153 peixes.

Pois bem, o tema central de Aparecida, “discípulos e missionários”, que ainda continua presente nas assembléias da CNBB, é como as duas pontas da rede. Puxando-as, vem a rede inteira. Resta ver se vem vazia, ou cheia de peixes. Depende do compromisso dos discípulos de Cristo com as causas da humanidade. Jesus tinha dito que seriam pescadores de homens. A rede da Igreja precisa estar repleta da problemática humana.

Como no tempo dos apóstolos, o Ressuscitado pede à CNBB que lance as redes na realidade do povo brasileiro. Há um grande cardume de problemas, que aguardam a solicitude missionária da Igreja para serem assumidos à luz da Ressurreição, e transformados em caminho de vida nova para todos.


(*) (www.diocesedejales.org.br)






OS PRECONCEITOS DE ONTEM
Vladimir Souza Carvalho (*)



Joãozinho Retratista, como fotógrafo, enclausurado em Itabaiana, na década de quarenta, fazia coisas que o cão duvidava em termos de fotografia. Uma delas, foi personagem principal a jovem, das melhores famílias locais, que aparecendo no seu atelier, para tirar uma foto 3x4, terminou figurando em uma montagem, na qual aparecia de calça comprida e de bota, segurando as rédeas de um cavalo. A façanha da montagem, na qual Joãozinho Retratista aproveitava a fotografia de uma artista de cinema, repousava na falta de recursos técnicos da época e no fato de o fotógrafo trabalhar ainda com negativos de vidro, conseguindo, ainda assim, alcançar o grau da perfeição.

Mas, em casa, quando a jovem mostrou a foto aos pais, o desfecho foi trágico: apanhou. Não era recomendável uma moça de família vestir uma calça comprida, e, ainda mais, aparecer em uma fotografia com o traje condenado. Os pais da jovem não concebiam que, da foto, só era da filha a cabeça, porque o resto do corpo, como a blusa, calça comprida e etc., pertencia a uma artista americana. O pau comeu. A foto foi rasgada e a moça caiu na reprimenda da pancada. Mas, Joãozinho Retratista não se abalou. A foto permaneceu a vida inteira em exposição no seu atelier, ao lado de outras, pendurada na parede, ou em porta-retrato de vidro. O atelier era dele e a produção artística também. Os pais da jovem que fossem se danar na casa do atraso e do inferno, deve ter pensado. Ora bolas.

O atraso, é bom ressaltar, não era obra exclusiva dos pais da jovem, um dos quais, a mãe, prima de minha avó paterna. O atraso era fruto da época, atraso que exornava o mundo interiorano, no qual Itabaiana se situava. Joãozinho Retratista entrou com a idéia e a façanha da montagem. A jovem, com o rosto na foto e a surra tomada. A fotografia ficou, eu vi, todos viram, Joãozinho Retratista contando para todo mundo, por três décadas adiante, a história da foto e suas conseqüências. A gente se espantava, sem se lembrar que a foto foi produzida na década de quarenta, estando a ouvir o relato do fato na de setenta, ou seja, trinta anos depois.

Itabaiana era um reduto fechado, que não abria as portas para nenhum sintoma de civilização, como, aliás, deveria ser todo o interior sergipano, e, um pouco menos, a capital. Uma professora do Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, vinda de Aracaju, no meio da década de trinta, foi beijada pelo namorado no oitão da Igreja Matriz. Talvez até um leve ósculo no rosto. A cena foi vista. A cumeeira moral balançou. A diretora da escola, uma solteirona juramentada, vaticinou: esse negócio de moça de Aracaju ensinando em Itabaiana não dava certo. A mesma reação, ou quase idêntica, a do padre Benvindo Tito de Jesus, quase cem anos antes, quando Itabaiana ainda era vila, ocasião em que sua sobrinha, num passeio pelos arredores do centro urbano, foi beijada por Tobias Barreto. Deus do céu! O professor de Latim da pequena mocidade itabaianense foi chamado de mulato pela ousadia do beijo.

Mas, não era só em Itabaiana. Aqui, em Aracaju, um itabaianense, meu amigo, de quem ouvi o relato, já noivo, no final da década de sessenta do século passado, precisava ir três vezes ao dia se apresentar ao futuro sogro, ou seja, pela manhã, pela tarde e pela noite, a fim de deixar o velho tranqüilo, porque a noiva tinha viajado a Itabaiana para passar uns dias na casa dos futuros sogros. No caso, é bom recordar que a estrada, que ligava Aracaju a Itabaiana, não era ainda asfaltada, levando um carro, por mais rápido que fosse, no mínimo, um pouco mais de uma hora e meia no percurso da piçarra e da poeira. Mas, o velho queria resguardar a moral da filha e o meio que encontrava era aquele.

Dona Yáyazinha de seu Vivi, uma alegre e simpática senhora, sentada na calçada da casa, via a mulherada passar, se rebelando contra aquelas que traziam as pernas cabeludas. Não continha a sua ironia, que o filho mais novo, Alberto, herdou. Ante aquele monte de cabelos, esbravejava que, se ali, no caminho, era aquela mataria toda, imagine na praça da feira, para onde os caminhos convergiam, como não deveria estar. Mas, a mulherada não raspava as pernas, porque era pecado, alguém deve ter dito a centenas de anos atrás e a sentença ficou transformada em norma que ninguém ousava revogar.

Baile com luz negra foi um horror. A primeira vez que, na Associação Atlética de Itabaiana, década de setenta, mais precisamente, no seu início, num baile, apagaram as luzes, para ficar só uma penumbra, um cidadão, cuja filha dançava com o namorado, acendeu todas as lâmpadas, à revelia da direção do clube. Quem quisesse dançar no escuro que fechasse os olhos, proclamou no alto de sua autoridade de pai, alegando que, nem no Rio de Janeiro, se fazia baile assim, no escuro. Ninguém, da diretoria do clube, ousou apagar, outra vez, as lâmpadas, pelo menos, naquela noite.

Juiz de Direito de Nossa Senhora da Glória, no final da década de setenta, viajando de ônibus, ao passar por Feira Nova, ouvi de uma senhora, ao meu lado, vendo as alunas do ginásio com short, dentro da aula de educação física, que uma mãe, de respeito, não deixaria nunca uma filha sair de casa daquele jeito. Filha dela, de short, assim, na rua, na presença de homens, nem pensar. Foi nessa mesma época que um estabelecimento comercial em Itabaiana resolveu colocar, na vitrina, um manequim, em exposição permanente, e, ainda mais, portando um biquine. O velhinho, lavrador aposentado, chapéu na cabeça e chinelo gasto nos pés, morador da cidade, parava, olhava e deitava falação. Aquilo era o final do mundo, berrava e proclamava. Mas, não saia de perto, o olhar de vira-lata faminto na apreciação das bonitas formas do modelo, ainda que a boca, contrariando o coração, entoasse canto de condenação.

Os preconceitos foram, aos poucos, sendo derrubados. Há sempre a infantaria, que sai na frente, Leila Diniz pulando muro e impondo comportamentos novos, como, antes dela, Chiquinha Gonzaga ditou moda. Da Corte para as províncias, as revoluções sociais se fizeram de forma lenta, mas, gradativamente, os sintomas chegando, aqui e ali, acabando com toda a cautela e exagero do vestido longo a esconder o corpo. A televisão deve ter contribuído muito para a alteração de atitudes, com a liberação de roupas, gestos, e atitudes.

Joãozinho Retratista, estivesse vivo e atuando ainda como fotógrafo, ia gostar, mesmo sem ter idéia exata de que a sua montagem foi um dado pioneiro de evolução na década de quarenta do século passado. E se tivesse paciência para aprender a navegar na internet, ia, ainda, achar que a montagem feita, a que gerou uma surra na jovem conterrânea, minha parenta não mui distante, não se constituía, nem de longe, em um minúsculo e imperceptível grão de areia no meio do deserto de Saara das fotos que circulam nos quatro cantos do mundo. Não só ia achar, como, cá pra nós, ia gostar também. E muito.


( * ) vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe







EM ALGUM MOMENTO
LimoRoc


Em um furacão de beleza o coração contempla o murmúrio do mar...
Não importa onde esteja...
O lugar do coração mora no desafio de ser...
Em algum momento escrevi poesias,
publicadas e elogiadas..
Imaginava ter findado a veia de soluços e sonhos...
Percebo ser frase reticente a vagar na mediocridade de passos temerosos,
ainda que ousados e assumidos...
Permito-me outra vez poetizar a vida em meu jeito de ser...

27.08.2006





NOVO MODELO DE SOCIEDADE
Frei Betto



Ao participar do Fórum Econônimo Mundial para a América Latina, a 15 de abril, no Rio, indaguei: diante da atual crise financeira, trata-se de salvar o capitalismo ou a humanidade? A resposta é aparentemente óbvia. Por que o advérbio de modo Por uma simples razão: não são poucos os que acreditam que fora do capitalismo a humanidade não tem futuro. Mas teve passado?

Em cerca de 200 anos de predominância do capitalismo, o balanço é excelente se considerarmos a qualidade de vida de 20% da população mundial que vivem nos países ricos do hemisfério Norte. E os restantes 80%? Excelente também para bancos e grandes empresas. Porém, como explicar, à luz dos princípios éticos e humanitários mais elementares, estes dados da ONU e da FAO: de 6,5 bilhões de pessoas que habitam hoje o planeta, cerca de 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, dos quais 1,3 bilhão abaixo da linha da miséria. E 950 milhões sofrem desnutrição crônica.

Se queremos tirar algum proveito da atual crise financeira, devemos pensar como mudar o rumo da história, e não apenas como salvar empresas, bancos e países insolventes. Devemos ir à raiz dos problemas e avançar o mais rapidamente possível na construção de uma sociedade baseada na satisfação das necessidades sociais, de respeito aos direitos da natureza e de participação popular num contexto de liberdades políticas.

O desafio consiste em construir um novo modelo econômico e social que coloque as finanças a serviço de um novo sistema democrático, fundado na satisfação de todos os direitos humanos: o trabalho decente, a soberania alimentar, o respeito ao meio ambiente, a diversidade cultural, a economia social e solidária, e um novo conceito de riqueza.

A atual crise financeira é sistêmica, de civilização, a exigir novos paradigmas. Se o período medieval teve como paradigma a fé; o moderno, a razão; o pós-moderno não pode cometer o equívoco de erigir o mercado em paradigma. Estamos todos em meio a uma crise que não é apenas financeira, é também alimentar, ambiental, energética, migratória, social e política. Trata-se de uma crise profunda, que põe em xeque a forma de produzir, comercializar e consumir. O modo de ser humano. Uma crise de valores.

Desacelerada a ciranda financeira, inútil os governos tentarem converter o dinheiro do contribuinte em boia de salvação de conglomerados privados insolventes. A crise exige que se encontre uma saída capaz de superar o sistema econômico que agrava a desigualdade social, favorece a xenofobia e o racismo, crminaliza os movimentos sociais e gera violência. Sistema que se empenha em priorizar a apropriação privada dos lucros acima dos direitos humanos universais; a propriedade particular acima do bem comum; e insiste em reduzir as pessoas à condição de consumistas, e não em promovê-las à dignidade de cidadãos.

Há que transformar a ONU, reformada e democratizada, no fórum idôneo para articular as respostas e soluções à atual crise. Urge implementar mecanismos internacionais de controle do movimento de capitais; de regular o livre comércio; de pôr fim à supremacia do dólar e aos paraísos fiscais; e assegurar a estabilidade financeira em âmbito mundial.

Não haveremos de encontrar saída se não nos dermos conta de que novos valores devem ser rigorosamente assumidos, como tornar moralmente inaceitável a pobreza absoluta, em especial na forma de fome e desnutrição. É preciso construir uma cultura política de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, e passar da globocolonização à globalização da solidariedade.

As Metas do Milênio e, em especial, os sete objetivos básicos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, de 1995, devem servir de base a um pacto para uma nova civilização: 1) Escolaridade primária universal; 2) Redução imediata do analfabetismo de adultos em 50%; 3) Atenção primária de saúde para todos; 4) Eliminação da desnutrição grave e redução da moderada em 50%; 5) Serviços de planificação familiar; 6) Água apta para o consumo ao alcance de todos; 7) Créditos a juros baixos para empresas sociais.

A experiência histórica demonstra que a efetivação dessas metas exige transformações estruturais profundas no modelo de sociedade que predomina hoje, de modo a reduzir significativamente as profundas assimetrias entre nações e desigualdades entre pessoas.



Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo e outros, de “O desafio ético” (Garamond), entre outros livros.


Obs: O artigo acima só poderá ser reproduzido com autorização do escritor.







FOLHAS AO TEMPO...
Maria Inês Simões - Bauru/SP
www.mis.art.br
mis@mis.art.br



Katharina desligou seu computador às 23h30, não porque estivesse cansada mas já era hora de dormir... O dia??? 25 de setembro de 2003 dirigiu-se para a cama, ainda pensou em um beijo azul que lá fora rodopiava com o vento. Um beijo dirigido ao amor... Dormiu.

- Kath são 6h30 da manhã acorde!!!

- Senhor, ainda estou com sono....

- Vc se esqueceu, hoje é dia de vc varrer o quintal...

- Senhor, não está ouvindo a ventania lá fora, hoje... O Senhor caprichou em?... Como posso varrer o quintal com este vendaval?

- Vai!... Deixa de ser preguiçosa, levante-se e venha varrer o quintal...

- Senhor... Não vou conseguir o vento está muito forte, e as folhas não param quietas um segundo... Conhece o tamanho de meu quintal... O tempo que vou perder... Um trabalho inútil... Não vou conseguir.

- Kath.. Kath... Seu objetivo hoje pela manhã seria varrer o quintal, e já tinha te preparado uma lição... Vem varrer o quintal vem... Acorde para ouvir o quanto preciso de vc... O quanto te amo... E preciso de vc.

- Ok... O Senhor venceu... já me acordou mesmo... Não vou conseguir dormir mais, mesmo que quisesse... >:-(

E Katharina levantou-se, já não mais com sono. Dentro de si uma sementinha de raiva... Queria varrer o quintal sim, assim como queria enviar um certo beijo azul ao universo online&offline. Mas o vento forte lá fora... Entoava seu som revelador. Pegou a vassoura. A ventania soprava intensa. Ainda tentou questionar.

- Não vou conseguir!!! E mais, veja as unhas dos meus pés, estão impecáveis. Ontem fui a pedicuro, e se varrer o quintal hoje com esta ventania... Vão ficar horríveis.

- Kath... Vai desistir de seu objetivo e não atender ao meu pedido por causa de suas unhas ou por causa de uma ventania? Coloca uma meia um tênis.... Vá se calçar depois cumpra sua tarefa.

E assim Katharina fez... Colocou uma meia um tênis, pegou a vassoura e foi à luta. Já nas primeiras vassouradas, resmungou.

- Não vou conseguir, o vento se faz forte. O Senhor poderia acalmá-lo por um momento, ou então parar com este vento até que eu varra o quintal. Não pode?????

- Não posso!!! Faz parte da lição. Ouça Katharina, muitas ventanias e tempestades vêm por ai. E vc terá que enfrentá-las.... Todas. Por mais que elas sejam impetuosas, vc terá que colocar muita ordem e limpeza no quintal. É sua missão. Sei que em momentos assim, como vc disse, muitos dirão “Senhor, mas por que nos envia ventos tão fortes, tempestades, maremotos, terremotos, mortes ... Por mais que tentemos sobrevivemos está impossível”. Culpa do Senhor? E o que dirás Katharina? Vc conhece a tecnologia. Aos homens entreguei sabedoria, mas estão usando-a contra si próprios, contra seus irmãos. Máquinas que mudam o tempo são construídas. Nem sempre os ventos, as tempestades, maremotos, terremotos serão enviados por mim. São frutos do poder do homem, em ação, a sua destruição. Em pequenas e grandes mostras de seu poder diante das nações. Aquela que controlar melhor o tempo e o momento, será a maior. E pior Katharina ainda me culparão pelas tragédias ocorridas em suas investidas.

- Senhor, entendo... Mas não consigo varrer o quintal, por mais que eu tente deixá-lo limpinho... Não consigo... Varro... Varro.... E as folhas só obedecem ao vento... E as folhas são enviadas novamente para o local onde eu já havia varrido e tudo se espalha novamente. Mas não desisto... Senhor... Em algum momento há de parar de ventar e ai consigo ajuntar as folhas secas e limpar o quintal.... :-)

- Katharina ouça....Não vai conseguir assim... Vc está varrendo contra o vento e o tempo... Pois, não vai parar de ventar neste momento. Tente varrer a favor do vento e verá que ganhará tempo e cumprirá sua missão.

E assim Katharina fez, varreu parte por parte do quintal, e sempre à favor do vento, descobriu os cantos onde tinha a melhor chance de ajuntar as folhas e assim aproveitava o momento e recolhia o que precisava ser recolhido, e com calma seguia limpando o quintal. Deixou tudo limpo. Porém a ventania ainda continuava forte. Mas ela estava feliz havia cumprido sua missão. Pensou ainda em um beijo azul, e sentiu-se mais feliz ainda. Os momentos de vendavais são favoráveis aos beijos azuis, pois o vento os levam com maior intensidade.

- Pronto Senhor, terminei de varrer o quintal, o que devo fazer agora?

- Heheh... Volte ao seu computador muito ainda a aprender sobre beijos azuis, vendavais, maremotos, terremotos... chips... e tecnologia.







PENSANDO ALTO
Therezinha Paiva
07.02.2009



Dias de alegria, de júbilo, de realizações mis.
Dias tristes, cinzentos, ameaçadores.
Quem não os viveu? Quem não os vive?
Importante se faz que de ambos tiremos lições e sejamos gratos por tudo que nos permitiram realizar e crescer.
Quando felizes, queremos eternizar os momentos; quando terríveis, queremos apagá-los e com isso saímos em busca de outros caminhos, o que os torna de grande valia.
Penso que o importante é o caminhar, o buscar, o realizar sem que importe muito onde chegaremos. Uma vez conquistado, o foco de nossa atenção se desvia e sai em busca do novo, do distante, que nos acena e leva a novas caminhadas, novos conhecimentos, novo crescimento pessoal, profissional, social, psíquico. Novos rumos a atiçar nosso eu; como parar? Parar?
Não vivemos sozinhos. Da mesma forma que buscamos amor, carinho, proteção, oportunidades, temos que estender nossas mãos para aqueles que nos cercam e merecem nossa amizade, nosso respeito e admiração e tanto quanto nós desejam conquistar seu espaço, traçar seu caminhar e colher seus frutos.
Pensem! Reflitam! Sonhem! Busquem! Realizem!
Sejam vocês sempre e sempre!
Façam felizes os que os cercam!
Sejam felizes!
Sejam amigos-maiores!
Um abraço e o meu carinho.



Obs: Imagem enviada pela autora