Há silêncios e palavras jorrando de veias abertas... Viver é partilhar laços, fortalecer as turbulências... Esse espaço será uma travessia ousada e encantadora onde juntos nos debruçaremos na escuridão de desafios e colheremos estrelas em lutas comprometidas... 24.04.2006 - 9:03h(resomar) Obs: Este é um blog partilhado.

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Terça-feira, Abril 28, 2009






POR UMA EDUCAÇÃO AMOROSA
Marcelo Barros*
(irmarcelobarros@uol.com.br)



Nos últimos dias, alguns jornais de TV têm divulgado estudos de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) sobre a evasão de jovens de salas de aula. A pesquisa aponta que a incidência de jovens que abandonam a escola ainda é muito alta. 43% destes jovens declaram que fazem isso por não ter motivação para estudar. Evidentemente, os fatores que levam a isso são diversos, mas uma constatação inevitável é a de que a escola ainda se mantém um tanto rígida e separada do cotidiano da vida, além de presa a conteúdos nocionais e métodos superados em um mundo no qual a juventude está envolvida em internet, orkut e jogos eletrônicos.

A realidade da educação tem mudado em toda a América Latina. Agora, além de Cuba, mais dois países foram reconhecidos pela UNESCO como territórios livres do analfabetismo: Venezuela e Bolívia. Outros estão no caminho. No nosso país, o programa “Brasil Alfabetizado” visa universalizar a alfabetização dos maiores de 15 anos. Já conseguiu alfabetizar mais de nove mil adultos. Apesar disso, ainda temos uma taxa de 16% de analfabetos. E o mais doloroso é que as pesquisas mostram: a maior parte das pessoas analfabetas no Brasil já passaram por alguma escola e saíram sem aprender a ler, ou como dizia Paulo Freire, a reinterpretar o mundo.

Não se pode negar que a atual gestão do Ministério da Educação esteja fazendo, em todos os níveis, um trabalho positivo pela transformação das estruturas da educação. Está havendo um aprimoramento das estruturas da educação infantil, integrando creche e escola e formando pedagogicamente as professoras encarregadas da primeira educação. Os exames que comprovam o rendimento educacional de cada classe e de cada escola expõem a competência e opção das professoras. Uma escola de periferia recebe uma avaliação positiva, enquanto outra, no mesmo bairro, com as mesmas condições e lidando com crianças da mesma classe social, recebe avaliação negativa. Isso revela que as condições sociais não explicam tudo e as professoras precisam sempre rever sua dedicação e cuidado. De fato, a criança dos primeiros anos aprende, não por alguma opção intelectual ou ambição pessoal, mas para agradar e receber aprovação e amor da pessoa adulta que a acompanha. Também no nível da escola média e universidade, vários programas cuidam de melhorar a universidade. A “escola aberta” e “a conexão de saberes” aprofundam a relação da escola e da universidade com movimentos e comunidades populares.

Todos sonhamos com uma escola que parta da realidade da juventude, se construa de amor e ofereça a uma juventude muitas vezes sem perspectivas e sem rumos na vida, motivos não só para viver, mas para ser pessoas boas e solidárias.

Gandhi dizia: “A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer com que desabroche o melhor de uma pessoa”. Toda educação deveria levar a pessoa a assumir a consciência de sua dignidade humana e do seu papel de sujeito e não de objeto na construção da sociedade. É certo que vivemos em um mundo no qual os governos são incapazes de acabar com a fome e a miséria de multidões, mas empregam milhões do dinheiro público para salvar bancos falidos e grandes empresas, vítimas de esquemas desonestos. Entretanto, apesar de tudo, as políticas públicas existem e são fundamentais. Elas têm sido aprimoradas, mas não bastam. A escola precisa ser assumida por todos os cidadãos, como algo que pertence a todos e não somente ao governo ou ao/à diretor/a do estabelecimento. Este processo de apropriação da escola por parte de toda a comunidade local é essencial para a educação da juventude, integrando-a na realidade. É este processo que possibilita a escola assumir e até promover a educação a partir de uma verdadeira diversidade cultural. As tantas escolas que, por todo o Brasil, são bilíngües (ensinam em português e na língua indígena da comunidade), assim como as que se inserem nas culturas afro-descendentes e ensinam a história da África e das comunidades negras no Brasil mostram a riqueza a que se pode chegar. Mais dificilmente, a evasão escolar se dá nestes estabelecimentos.

Para quem tem fé e vive uma busca espiritual, o compromisso com a educação faz parte da missão de testemunhar o amor de Deus por todos os seus filhos e filhas. assim como o de colaborar para que todos, jovens e adultos, participem da ação criadora de Deus, ao transformar este mundo em uma sociedade mais justa e em comunhão de respeito e amor com todo o universo.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
www.empaz.org/







VELHO AMIGO
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com


A última vez que o vi você saiu correndo pelo corredor lateral.

Havia uma conduta firme que tinha sumido do seu comportamento nos últimos dias.

Sua postura em nenhum momento estava hesitante, seus passos pareceram mais firmes do que o normal.

Acho que aquela generalização sobre a melhora anterior a morte que nós humanos costumamos definir também se aplica a vocês.

Não vi seu semblante antes de ir e quando pedi que voltasse com você para que te observasse mais uma vez, ninguém me ouviu.

Para tornar a despedida menos dolorosa eu me virei e deixei que as lágrimas rolassem silenciosas.

Algumas pessoas conseguem transcender os sentimentos por um animal. Eu sou uma delas.

Quando eu ganhei você tinha pouco mais de 8 anos e ao te ver no fundo da caixa eu te achei feio.

Descobri que a beleza não é essencial e que um bichinho de pêlo ralo pode ser seu melhor amigo mesmo quando arrasta suas bonecas pela casa.

Não me arrependo em ter acordado de madrugada para preparar algo para você comer, o problema era que você não queria dormir depois e eu tinha aula no dia seguinte.
Seu jeito desajeitado, seus escorregões na lajota azul, era engraçado ver você andar tropegamente.

Um dia você aprendeu a caminhar, a correr pelo quintal, a pular. Você cresceu e ficou maior que eu.

Passaram-se os anos e ao contrário de tantos você continuou uma eterna criança.
Daquelas com um coração enorme, que não guardam rancor de nada.

Seu jeito carinhoso, brincalhão isso não vou esquecer nunca.

O olhar terno.

A mania de morder tudo o que via pela frente, até pedra.

Sua gula insaciável, seu latido estrondoso.

Amigão cê vai fazer falta.

Não é nada fácil se despedir de alguém que viveu 14 anos em prol de me fazer sorrir....

*** Ao meu cachorro Pluto que foi leal a mim durante toda a sua vida.

Obs: Imagem enviada pela autora.







Texto de WALTER CABRAL DE MOURA
(wacmoura@nlink.com.br)


Que se cumpra teu destino,
menino!
Ou pensas que imagina
o girino
um dia tornar-se sapo?

Querias que a ovelha soubesse
que enquanto seu pêlo cresce
já se pensa em amanhã
tecer casaco de lã?

E se a lagarta indolente
pudesse, numa mutreta
descobrir antecedente
que vai virar borboleta?

Talvez os rios pudessem
dar um jeito de parar
se a caminho já soubessem
que estão indo para o mar!

Por isso tudo, menino
anda calmo por aí
faz em paz o teu xixi
e que se cumpra o destino!







AGORA NÃO DÓI MAIS
Rivkah Cohen


Esse pássaro não estava aí
posicionado de forma tão bonita
a inspirar o poema,
a incitar o tema
ou era eu
que não o via?

E essa fumaça
que espessamente colore?
Será que eu ignorava, só passava
levando o meu olhar aturdido
e tudo que dele recorre?

O que ocorreu comigo
que fez com que
eu me depare com a beleza
te sinta e te veja,
pássaro bonito?

Até parece
que com o poder de uma prece
tudo que era ruim
ficou lá para trás
e hoje bailo, brinco
e como é bom sentir
maravilhosamente essa Paz!

É..
enfim aprendi
que longe
é um lugar que não existe
e agora não dói mais..


Obs: Imagem da autora.







Texto de DJANIRA SILVA
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/


No caminho da serra existia uma pedra. Era bonita devia ter um nome. Quis saber por que não tinha. Perguntei, ninguém sabia. A mãe disse, não sei, à avó, também não, ao pai não tive coragem de perguntar.
Fui à Igreja, muitas vezes, e muitas vezes perguntei ao padre. Ele também não gostava de criança.
Perguntei ao espelho, contou-me uma história, pediu segredo. Guardei tão bem guardada que em algum lugar da alma a esqueci.


Obs: Texto retirado do livro da autora – Memórias do Vento







VITALINO
E O BARRO DO GÊNESIS
Sebastião Heber (*)
shvc@oi.com.br




O mestre Vitalino de Caruaru, PE, está completando 100 anos – nasceu em 10 de julho de 1909 e faleceu em janeiro de 1963. Mas sua obra continua viva, testemunhando em barro a vida do nordestino. Ele se liga à matéria-prima que sempre impressionou todo homem e toda mulher, o barro. É como se a pessoa se transportasse inconscientemente àquela vocação-apelo do Criador no livro do Gênesis :”Lembra-te homem que és pó e em pó te hás de tornar”.

Quem foi criança no interior, lembra-se que os brinquedos eram basicamente de barro: cavalinhos, casas, bois, vacas, etc. Desse modo, Vitalino, desde os seis anos de idade, estendeu o brinquedo de criança para testemunhar no barro, o “modus vivendi” do nordestino – podemos falar em retratar no barro os aspectos mais marcantes da vida do seu povo. Tudo era resultado das experiências de uma infância no campo aliada àquela da modelagem no barro, que executava construindo miniaturas de animais e louça de brincadeira, ou seja, louça utilitária em forma de bichinhos, de paliteiro, de mealheiro, de farinheiro. E tudo isso, alem de ser um dom, ele aprendeu com a mãe que era louceira. Ela deixava as sobras de barro para ele dar asas à imaginação e as mãos livres para o ofício criativo de um elemento ancestral na história das culturas que é o barro.

Ele nasceu na austeridade do Sítio Ribeira dos Campos e de lá saiu em direção do Alto do Moura,bairro de Caruaru, local marcado pela presença de oleiros, do rio e de barro, à disposição daqueles artesãos. Essa localidade usufrui, desde então, as benesses conquistadas pela fama mundial do ceramista. Nessa localidade existe a casa em que ele viveu e trabalhou até a morte e se tornou um museu dedicado às suas obras de arte que retratam o jeito de viver do mestre caruaruense.

A partir dos anos 30, o artista direcionou sua inventividade para “as peças de novidade”, ou seja, a construção de grupos de figuras humanas que reproduziam o cotidiano e diferiam do que se fazia em cerâmica. Foi na condição de fiel observador do cotidiano da vida do povo, dos ciclos vitais da humanidade, os costumes, crenças, tudo enfim que caracterizava o povo nordestino serviu para como esteio para as mãos hábeis do ceramista transformarem o barro em arte.

O livro do Gênesis, numa grande parábola sobre a Criação, coloca a Deus Criador como o Grande Oleiro que molda da matéria primeira o homem “à sua imagem e semelhança”.Esse livro reflete um estágio da humanidade no qual o barro era o elemento importante para aquele grupo histórico-cultural. Tudo era feito de barro. A obra conclusiva da Criação foi feita dessa matéria. E é nela que o Criador infunde o seu sopro, o seu espírito - e dá vida ao barro tornando-o pessoa humana.

O Bispo D. Helder Câmara, que este ano também completa 100 anos de nascimento, um dia disse que “Vitalino era o mestre de todos os que trabalham no barro no Nordeste. Deus continua a inspirar tantos outros seguidores dele, e outros criadores para continuarem a sua obra. É, de fato, participar do Gênesis, é chegar em pleno ato da Criação, já agora do homem, continuando a Criação de Deus”.

S. Francisco, sintonizado com todas as criaturas, no seu “Cântico do Sol”, não se esqueceu da terra, cantada como elemento ... :
”Louvado sejas meu Senhor,
Por nossa irmã e mãe terra,que nos alimenta e governa,
E produz variados frutos
E coloridas flores e ervas”.
Dessa forma, o Mestre Vitalino, e todos os que modelam o barro em Maragojipinho, e em tantos outros recantos, continuam a grande sinfonia da Criação.



(*) Professor Adjunto de Antropologia da UNEB, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do IGHB ,do Instituto Genealógico e da Academia Mater Salvatoris







PADRE, PRESBÍTERO, PASTOR, MINISTRO
D. Demétrio Valentini (*)



O Cardeal Martini, um dos homens de Igreja mais lúcidos hoje, propôs recentemente a realização de um novo concílio ecumênico, para tratar de três temas centrais para o futuro do cristianismo. O primeiro em torno da inculturação, para encontrar um novo patamar de diálogo do Evangelho com as grandes culturas e religiões no mundo de hoje. O segundo seria o ecumenismo, para um novo relacionamento entre os cristãos. E o terceiro seria sobre o ministério, para uma nova estruturação dos serviços internos da Igreja. Portanto, um novo diálogo com o mundo, um novo entendimento entre os cristãos, e uma nova organização interna na Igreja.

A assembléia da CNBB, reunida nestes dias, está abordando, de leve, o terceiro dos grandes temas sugeridos pelo Cardeal Martini. Está renovando as orientações para a formação dos presbíteros. Trata-se da formação dos padres, como o povo os chama.

As atenções de todos os bispos, nesta assembléia, se voltam para este ministério específico dos padres, sem analisar nem questionar o corpo bem mais amplo do conjunto de todo o ministério eclesial, que abrange desde o ministério do papa, dos bispos, dos presbíteros, dos diáconos, e também dos diversos ministérios leigos que podem ser exercidos, na perspectiva de uma Igreja toda ministerial.

Portanto, é uma abordagem com limites bem determinados, incidindo sobre uma proposta prática e concreta, de valorização deste ministério por uma aprimorada formação dos que o assumem.

Na análise da natureza eclesial deste ministério, o documento ora em estudo na assembléia, constata a diversidade de nomes que designam as pessoas que exercem este ministério. São chamados de padres, de presbíteros, de ministros, de pastores. Todos nomes para designar a mesma pessoa.

O documento constata que cada um desses nomes enfatiza um aspecto deste ministério com significação tão variada. É padre porque exerce uma paternidade em relação à comunidade. É presbítero, como foi chamado nos inícios da Igreja, porque possui maturidade, fruto de sua experiência da vida. É ministro, porque está a serviço da comunidade e age em nome de Cristo. E sobretudo pode ser chamado de pastor, a figura bíblica que melhor espelha a missão de cuidar da comunidade como o pastor cuida do rebanho.

Portanto, uma identidade muito rica, que justifica esta diversidade de nomes, com os quais se tenta expressá-la.
Diversos nomes, para uma mesma função, para um mesmo ministério. Diversas palavras, para uma realidade complexa, concentrada numa mesma pessoa.

Mas aqui a reflexão sobre o ministério na Igreja poderia tomar outra direção, a partir da diversidade de nomes com que o padre é designado. Ao contrário de reforçar as atribuições para uma mesma pessoa, esta diversidade de nomes pode sugerir a distribuição deste ministério de maneira diversificada e desconcentrada, de tal modo que ele poderia ser repartido de modo a envolver outras pessoas que poderiam exercer este mesmo ministério de maneira diferente, segundo a diversidade de circunstâncias e de acordo com as necessidades concretas de cada situação.

Isto iniciaria uma revisão em profundidade de todo o conjunto do ministério na Igreja, levando em conta os critérios que norteiam toda a iniciativa ligada à herança confiada por Cristo, isto é, a fidelidade no essencial, e a liberdade nas circunstâncias.

Em síntese, ao contrário de acumular nomes para uma mesma função e para as mesmas pessoas, repartir o ministério, de maneira diversificada, para outras pessoas, em vista do atendimento mais adequado às necessidades da comunidade. Assim, libertando-se de formas fixas, a Igreja ficaria mais fiel a Cristo, e as comunidades melhor servidas.


(*) www.diocesedejales.org.br








O BÊBADO E AS FLORES
João Batista Pinto
(melopintoneto@uol.com.br)


Esmaguei margaridas em minhas mãos.
Eu estava bêbado,
Eu não sabia.

Muitas pensaram
Que eu estava louco,
Eu não sabia.

Amanhã,
Estarei lúcido nos campos,
Colhendo em tuas mãos
Outras rosas mais puras,
Outras rosas tão puras.

Chorei,
Eu estava bêbado,
Eu não sabia.

Bem que poderia ter magoado rostos,
Magoado corações,
Eu estava bêbado,
Eu não sabia.


Obs: Publicado no Diário de Natal







A GUERRA CONTINUA......
Paula Barros
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)



A minha
A tua
A nossa
A deles
São tantas guerras
Precisamos de muita paz

Precisamos falar das guerras
Dos conflitos internos e externos
Entre povos de nações diferentes
Entre marido e mulher
Entre pais e filhos
Entre vizinhos
Entre colegas de trabalho
Entre eu e você
Entre você e ele
Entre eu e eu

Precisamos promover a paz
No mundo
Na rua
No trânsito
No trabalho
Na família
Dentro de nós

A guerra continua...
Até quando? Não sei
Se vejo, se leio, se sei....sofro, encho os olhos de lágrimas, a alma fica inquieta.
Não tanto quanto uma guerra dessa dimensão mereceria.

Me assusta a guerra
Mas confesso e pode ninguém me entender
Me assusta muito mais as guerras diárias
De índole, da perversão, da maldade por impulso, do mau humor, dos rompantes....
Me assusta o político que rouba do pobre por ganância
O empresário que não paga impostos
O lojista que não dá nota fiscal e me olha atravessado quando peço e me trata mal
As brigas no trânsito
Os motoqueiros que se jogam na frente dos carros, andam na contra mão e se acham certos
Os motorista que de propósito assustam os ciclistas, não respeitam o pedestre
A moça loirinha e linda que desceu comigo no elevador, não respondeu meu bom dia e deixou o portão quase bater em mim
Me aterroriza quem bebe embriagado e mata vidas
Adultos que molestam crianças
Funcionários de escolas públicas que furtam merendas
Muitas guerras diárias me assustam
Inclusive a que travo comigo na tentativa de ser melhor e me vejo repetindo os mesmos erros, a mesma insensibilidade, o mau humor, a minha agressividade.....
Me assusta a minha falta de sensibilidades para tantas desgraças do mundo

A guerra continua...
Se podemos pedir paz, vamos pedir
Se queremos postar da guerra, sermos mais humanitários, mostrar sensibilidade, é mais um gesto que se soma a tantas outras ações – parabéns

Mas se convido vocês para relaxarem. Relaxem, aproveitem. Penso que ajuda na campanha da paz. Interna e das relações. Não me critiquem por causa da guerra.

Pelo menos esses momentos me ajudam nas minhas guerras internas, nas busca de ser melhor, de valorizar a vida, em busca da paz interior e dos ambientes por onde passo.

Não pensem que é fácil, nem que consigo sempre. Mas tento. Se não consigo levar a paz, me esforço muito mais para não promover a guerra.


Obs: Foto enviada pela autora ( Rio de Janeiro)







A PACIÊNCIA SE ESGOTA...
Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


Pensar Amazônia, além de florestas, minérios e biodiversidade é também lembrar 12% da água potável do planeta. Não daria para se imaginar que em plena Amazônia, numa cidade cercada de águas pelos lados, pelo subsolo e pelos ares, como Santarém no Pará, 30 mil pessoas estivessem sem água potável nas torneiras. Mas é o que esta acontecendo na cidade que tem dois grandes rios à sua frente.

Sábado passado, após duas semanas sem águas da companhia de saneamento e água e sem certeza de quando o serviço vai funcionar, a paciência se esgotou e uma marcha com latas vazias, cartazes e gritos de indignação ecoaram pelas ruas do bairro sem água nas torneiras. Ao final da marcha houve uma audiência pública com alguns políticos e lideranças populares, mas sem representantes da prefeitura, responsável pelo serviço de água e sem representantes do Estado, responsável pela concessionária do serviço da Cosanpa.

A população sofrida deu um ultimato às autoridades: ou tomam providência imediata, ou decisões mais severas serão tomadas pela população espoliada pela Cosanpa. Assim está acontecendo na Amazônia – as autoridades cívicas e as populações decidem pela democracia direta – a pressão organizada.

Lá onde a sociedade civil ainda não despertou, a melhoria de vida não acontece, os oportunistas se enriquecem descaradamente e a democracia representativa perde sua identidade. Se de um lado as autoridades públicas perdem credito, por outro lado, a sociedade civil vai crescendo em sua consciência política, exigindo o cumprimento de seus
direitos. É a nova democracia tomando corpo na Amazônia.





OLHOS NEGROS E PROFUNDOS
Maria Clara Lucchetti Bingemer (*)
(www.users.rdc.puc-rio.br/agape)




A primeira imagem que me veio ao coração quando recebi a notícia tão brutal de sua morte foi a de seus olhos: negros, profundos, perscrutadores, ansiosos por captar a realidade e ver mais além dela, em seu núcleo mais profundo.

Conheci Clarice Abdalla muito jovem, ainda namorada de Leopoldo. Seus sogros, Marília e Aluísio, eram amigos de muitos anos, engajados em muitas lutas comuns. Conhecia Leopoldo do Colégio Santo Inácio, da Comunidade de Vida Cristã da qual participava. Clarice deu entrada com naturalidade em meu coração, onde já tinham espaço reservado tantos de seus mais queridos e próximos.

No casamento de ambos, lembro-me do saudoso padre Ítalo, de Copacabana, o apóstolo do Morro dos Cabritos, tão prematuramente falecido. Com entusiasmo e vigor, ele testemunhava o sacramento do amor do qual aqueles dois jovens eram ministros. Foi uma tocante celebração eucarística, simples como Clarice e Leopoldo e, por isso, mesmo bela.

Tempos depois reencontrei Clarice. Na PUC, ela começava sua intensa atividade no Departamento de Comunicação, que também era o meu, antes de entrar na Teologia. Eu a via sempre ativa, trabalhadora incansável, olhando sempre transparente e direta com seus belos e profundos olhos negros.

Trabalhamos juntas no Centro Loyola, ela já como assessora de imprensa da Universidade, apoiando e divulgando todas as iniciativas que tomávamos. Estivemos juntas nos inícios do projeto Amaivos, portal da internet que cresceu como o grão de mostarda do Evangelho e hoje abriga pássaros em seus ramos frondosos.

Há um ano e meio, Clarice veio procurar-me para uma conversa particular no Decanato. Desejava fazer a experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio na vida diária e gostaria de saber se eu poderia acompanhá-la. Aceitei imediatamente, muito alegre de poder testemunhar o trabalho do Espírito Santo na vida daquela jovem e dinâmica mulher.

O que se passou durante um ano foi muito além de qualquer expectativa que eu pudesse ter. Aliás, sempre acontece assim, sendo Deus muito mais criativo do que nossa pobre imaginação, surpreendendo-nos sempre com o poder de sua graça. Clarice mergulhava fundo e se entregava inteira nos modos de orar propostos por Santo Inácio. Sua docilidade ao Espírito era impressionante e se deslumbrava com cada detalhe que descobria e assimilava.

Eu sentia que meu papel era absolutamente secundário naquele colóquio, onde o Criador dialogava amorosamente com sua criatura, conduzindo-a com carinho pelos caminhos que desejava. E ela prosseguia, com grande ânimo e generosidade. Ao terminar cada uma das etapas, vinha sempre trazer-me um presentinho, agradecer, com o coração transbordando de alegria e gratidão. Agradecia eu o bem que me fazia acompanhá-la e seguíamos em frente.

Clarice terminou seus Exercícios em outubro passado. Já antes de terminar havia sentido o desejo de integrar uma comunidade inaciana. Procurou uma Comunidade de vida cristã e ali entrou. Estava feliz, sentia-se crescer, cheia de desejos de servir.

Quando soube da notícia de sua morte, soube também, imediatamente e no mesmo instante, que na verdade estava madura para ir ao encontro daquele que com tanto carinho a conduziu na experiência espiritual recentemente realizada. O mistério que aqueles olhos negros contemplaram com tanto amor e tanto fruto agora se desvela plenamente diante dela, como plenitude de vida que não termina.

Os papéis se inverteram, querida Clarice. Agora é você quem me acompanha, é você que intercede por mim, por nós, estando como está já plenamente em comunhão com Aquele que a criou, a redimiu e a vivificava com seu Espírito a cada dia. Olhe por nós, por seu marido e filho, que sentem tanto sua falta. E por sua querida Universidade, que sem você se sente saudosa, mas ao mesmo tempo acompanhada. Você que foi tão viva na história, agora é viva em Deus, para sempre.


(*)Teóloga e Decana do CTCH







Nostalgia
LugCosta


Temos de ter cuidado com a nostalgia,
pois ela é perigosa demais,
sobretudo por ser silenciosa
e vai corroendo a alma e carregando a nossa força...
escondendo em seus sinistros porões
as poucas possibilidades de reação.
As recordações tomam formas concretas
confundindo o mundo real do mundo imaginário.
É um mergulho suicida:
nos lança sempre mais no profundo do poço.


Obs: Imagem enviada pelo autor.







SINTONIA NECESSÁRIA
Vilmar Locatelli
( vlocatelli@hotmail.com)



Se eu pudesse dizer-te
não me esqueceria de contar
o sonho que tive
esta noite

O céu não era belo
as estrelas mais que tristonhas não sorriam
para o mundo

A grande escuridão
invadiu os horizontes
e atrás dos montes
monstros ferozes
mostravam suas mãos

Não posso negar
chorei amordaçado
e as lágrimas estancadas
não conseguiam verter
sob o rosto frio
da inerte tristeza
que não era ainda vida

Pensei que estivesse
dormindo e sonhei
percebi que viajava
nos rastros da morte
mudei o curso da liberdade
e de verdade sonhei
beijando as flores sob o céu estrelado
achei a sintonia do amor
e amei.







PIO XI, O PAPA DE FERRO
Dom Edvaldo G. Amaral SDB (*)
(dedvaldo@salesianosrec.org.br)



“Qui frappe l´Action Catholique, frappe le Pape, et qui frappe le Pape meurt!” que seria algo assim como: “Quem fere a Ação Católica, fere o Papa e quem fere o Papa, morre!” Frase de Pio XI, o Papa da Ação Católica, que abriu ainda muito tímida a “a participação dos leigos no apostolado da Igreja”, como dizia a definição oficial. Nos idos do Papa Ratti, ainda estava distante a idéia de um protagonismo leigo na santificação das realidades temporais, que, três pontificados depois (Pio XII, João XXIII e Paulo VI), iria afirmar-se como doutrina por todos aceita, sobretudo depois do Concilio Vaticano II e as assembléias episcopais de Medellìn e Puebla.

Achille Ratti nasceu em 31 de maio de 1857 e foi ordenado sacerdote em Roma em 1879. Sólida e profunda formação intelectual, unida a enérgico senso prático, levou-o a dirigir duas das maiores instituições culturais da Igreja, a Biblioteca Ambrosiana de Milão e a Biblioteca Vaticana. Enviado representante pontifício em Varsóvia, na Polônia, foi ordenado arcebispo. Em 1921, ornado com a púrpura romana, foi arcebispo de Milão por alguns meses apenas, porque logo foi eleito sucessor de Bento XV no conclave de 6 de fevereiro de 1922.

Aí, mereceu realmente o título de Papa de ferro, ao enfrentar com intrepidez os três monstros do totalitarismo europeu do pós-guerra. Contra o fascismo, escreveu a carta em italiano “Non abbiamo bisogno” (Não temos necessidade) condenando as leis raciais e outros absolutismos da ditadura de Mussolini. Contra o nazismo, escreveu a carta “Mit brennender Sorge” (Com viva inquietação) condenando o anti-semitismo e o mito da raça ariana, superior às demais, e contra o comunismo ateu e materialista, promulgou para toda a cristandade a encíclica “Divini Redemptoris”. Encarou ainda a grande crise econômica de 1929, a guerra civil espanhola e as violentas perseguições aos cristãos na Rússia e no México. Foi o Papa das Missões e de Santa Teresinha, que constituiu padroeira das Missões e chamou-a estrela de seu Pontificado. Diz-se que ele passava noites indormidas, pensando na multidão dos homens, que não conhecem ainda Jesus Cristo. Seu pontificado marcou um desenvolvimento extraordinário da ação missionária da Igreja sobretudo na África e na América Latina. Foi o Papa de Dom Bosco que ele, como bibliotecário da Ambrosiana, visitou pessoalmente em seu humilde Oratório de Valdocco, passando alguns dias hospedado na casa do Santo dos meninos-de-rua da Turim da segunda metade do século XIX. Em seus discursos nas solenidades da beatificação e canonização do Santo, fez muitas referências elogiosas a esse encontro pessoal com S. João Bosco. Na Família Salesiana, é sempre chamado como o Papa de Dom Bosco. Contrariando os liturgistas da Cúria romana, determinou que a canonização do Santo da juventude ocorresse na Solenidade de Páscoa, 1º de abril de 1934, encerrando o Ano Santo do centenário da Redenção. Foi o primeiro Papa a falar ao mundo inteiro pelas ondas da Rádio Vaticana, inaugurada por ele com a presença do próprio inventor do rádio, Guilherme Marconi.

A morte súbita do Papa da Conciliação ocorreu no dia 10 de fevereiro de 1939, véspera do 10º aniversário do Tratado de Latrão, que criou o Estado da Cidade do Vaticano e pacificou as relações entre a Itália e a Santa Sé. Ele havia convocado os bispos italianos para uma solenidade especial no Palácio Apostólico. Após seu falecimento improviso, duas versões surgiram, desmentidas depois no pontificado de João XXIII: que ele pronunciaria naquele aniversário violento discurso, anulando unilateralmente os pactos lateranenses e que teria sido mandado assassinar pelo ditador fascista Mussolini. O discurso nunca foi divulgado e pareceu exagerada a suspeita de um assassinato no Palácio Vaticano.

Ao celebrarmos o 70º aniversário de sua morte, reverenciemos a memória do “Papa de ferro” e acolhamos o precioso legado de seu ensinamento e corajosa posição diante dos erros de seu tempo.


(*) Arcebispo emérito de Maceió







SUOR E LÁGRIMAS...
(resomar)


Há momentos de riscos e ousadia, (re)encontro e aconchego,
mistura de suor e lágrimas...

Há mudanças de caminho...
Ondas me tocam e busco o inesperado...
Abraço o inatingível nos intervalos do silêncio...
Enforco sonhos e desejos
e a perspectiva de partida se apossa da alma,
realidade desnudada...

Há passos no deserto dos sentimentos,
sombras em tuas palavras,
olhar enlouquecido em minha solidão...
Longa e dolorosa ausência...
Não te encontro dentro de mim...

Vago e indefinido amor!...


28.05.2003







GRAVISSIMUM EDUCATIONIS: 40 ANOS DEPOIS (PARTE V)
Luiz Moura
(lmoura.pe@uol.com.br)



Até a realização do Concílio, parece que a compreensão que se tinha de educação católica se confundia ainda com a escola confessional. Esta afirmação se fundamenta no fato de que o documento preparatório chamava-se escolas católicas. No entanto, o próprio Concílio corrigiu este equívoco ao modificar o título para educação cristã. Kloppenburg(1964) e Vasconcellos(1966) já observavam, nesta época, que educação e escola não se identificam e que a escola católica não é o único meio de educação cristã. Ao traçar a finalidade da educação, o Concílio assim se expressa: “a autêntica educação no entanto, visa o aprimoramento da pessoa humana em relação a seu fim último e ao bem das sociedades de que o homem é membro, e em cujas tarefas, uma vez adulto, terá que participar. (...) Há de dar assistência às crianças e aos jovens para desenvolverem harmoniosamente seus dotes físicos, morais e intelectuais, para adquirirem gradativamente um senso mais perfeito de responsabilidade, que há de ser retamente desenvolvido na própria existência por contínuo esforço e verdadeira liberdade, superados os obstáculos com generosidade e constância”. Nisto o Concílio foi grandioso pois ao conceituar educação visou o crescimento da pessoa e da comunidade onde ela se insere. No entanto, ao definir educação cristã, confunde a ação de educar com a ação de evangelizar: “educação essa que não visa apenas à madureza da pessoa humana acima descrita, mas objetiva em primeiro lugar que os batizados sejam gradativamente introduzidos no conhecimento do mistério da salvação e se tornem de dia para dia mais cônscios do dom recebido da fé; aprendam a adorar a Deus Pai em espírito e verdade, sobretudo na ação litúrgica; sejam treinados (conformentur) a orientar a própria vida segundo o homem novo na justiça e santidade da verdade; assim pois cheguem a constituir o homem perfeito, na força da idade que realiza a plenitude de Cristo e cooperam para o crescimento do corpo místico. Habituem-se(...) a contribuir para a transformação cristã do mundo na qual os valores naturais sejam assumidos na visão completa do homem redimido por Cristo e contribuam para o bem de toda a sociedade”


Terça-feira, Abril 21, 2009






A SACRALIZAÇÃO DA FUNÇÃO ALIMENTAR
E A 5ª FEIRA SANTA DOS CRISTÃOS
Sebastião Heber
shvc@oi.com.br



A 5ª feira Santa é um dia central na tradição cristã pois é revivida a instituição da Ceia Eucarística. “Tomando o pão, disse: ‘Isto é o meu corpo’ e tomando o cálice acrescentou:” Isto é o meu sangue. Tomai e comei, tomai e bebei”. Dessa forma, a teologia, especialmente a católica e as ortodoxo-bizantinas, circulam todo o seu patrimônio de fé em torno desse momento. E isso é tão marcante, que os anglicanos estão, nessa crença, mais próximos dos católicos do que da interpretação evangélica. É curioso que Lutero, de formação católica, acreditava na eucaristia como presença real durante a celebração da Ceia – ele chamava a essa crença de “in usu”, isto é, enquanto se celebrava a Ceia do Senhor, havia presença real, após a liturgia, passava o “efeito”. O protestantismo posterior se afastou dessa crença, mas há nele uma grande reverência à celebração do momento da Ceia.

É uma prática comum nas religiões o uso da comida como algo sagrado que se oferece à divindade e ao mesmo tempo é compartilhada por todos. Portanto, o alimento como oferenda ao Deus para alimentá-lo é uma forma muito antiga de se aproximar da divindade. Não é em vão que Gilberto Freyre, no prefácio do livro de Raul Lody, “Santo também come”, apresenta a cozinha do candomblé “como um espaço de culto tão sagrado quanto o peji”. De fato, no candomblé, tudo começa na cozinha e nada pode ser comparado à energia que emana das oferendas aos orixás.É por meio da alimentação comum dos santos e dos seus adeptos que as religiões têm assegurada a sua sobrevivência. Comer nos terreiros, é estabelecer vínculos e processos de comunicação entre homens, deuses, antepassados e a natureza.É preciso alimentar a divindade com o sacrifício para obter favores. Ninguém pode se apresentar ao seu Deus de mãos vazias.

Os sócio-antropólogos do final do século XIX e início do XX estudaram a dinâmica do alimento nas religiões. Durkheim, por exemplo,salientou que o banquete sacrificial cria comunhão não só entre as pessoas e os deuses, mas também entre os membros da tribo, pondo-se como um dos fundamentos da partilha e da coesão social..Mauss considerou o sacrifício a partir da distinção entre sagrado e profano, ressaltando a possibilidade de passar temporariamente ao mundo do sagrado através do rito sacrificial.

Na nossa sociedade ocidental, sociedade de consumo por excelência, o alimento é uma necessidade tão primária quanto o é para todos os outros povos, mas, pouco a pouco, vamos deixando de perceber a sua importância porque a satisfazemos quase automaticamente e sem esforço. Instaurou-se um hábito e um ritmo, por causa da nossa pressa, que separa as nossa refeições da dimensão sagrada que ela contém e que está bem presente nos povos de pequena escala. Para nós não é mais significativo afirmar que o alimento é importante, que é um elemento essencial para a vida. Atualmente, ninguém quer perder tempo fazendo comida. Tudo está à nossa disposição, sob as mais diversas formas: pré-cozido, pré-confeccionado, há tudo nos supermercados e nas lojas de importados, os selfservice é o que existe de mais prático e estão à disposição de todos. Somente o comer juntos, em certas datas, conserva ainda um certo valor, servindo para estreitar laços de amizade.

A refeição sacrificial teve na história das religiões um lugar de destaque e tem relevância nos diversos códigos religiosos. É realmente possível recuperar o valor simbólico do alimento na nossa sociedade? Na verdade, a racionalidade tem o poder de suprimir o lado simbólico da vida, a ponto de Hegel sustentar que o progresso do saber teria “exaurido o reservatório dos símbolos”, deixado pela tradição. É preciso admitir que , relativamente ao alimento,a sociedade hodierna conseguiu secar grande parte do depósito simbólico.

Das refeições totêmicas dos australianos, da homofagia do culto de Dionísio, dos sacrifícios védicos e dos banquetes das religiões de mistério, até a misteriosa Ceia cristã, a história se repete. O cristianismo celebra uma refeição sagrada e sacramental que os seus adeptos conhecem bem e que está no centro da sua vivência teológica. Inácio de Loyola dizia que “Cristo deve se tornar o nosso alimento, deve ser comido pelos cristãos, para se tornar remédio de imortalidade”. Gregório de Nissa confirma que “o Senhor se une ao corpo dos fiéis para que, através da união com o imortal, o homem também se torne partícipe da imortalidade”.

O sacramento da eucaristia mantém uma afinidade extraordinária com todas as refeições sacrificiais presentes na história das religiões.



Sebastião Heber. Professor Adjunto de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho, da Cairu. Membro do IGHB, do Instituto Genealógico e da Academia Mater Salvatoris.









SORRIR POR SORRIR?
É DIFÍCIL!
Rivkah Cohen


Não posso encobrir o que não se disfarça.
Essa contração no peito,
não é à toa, não vem de qualquer jeito,
não é de graça.......................!

Ela mesma se anuncia, como o ar,
o amanhecer com essa ventania!

Vem de forma translúcida, verdadeira,
sem usar máscara, sem ter medo.
Como quem não indaga,
não obedece o tema, muda qualquer enredo!

É visível, como quem conhece só as idas,
provocando esta fobia!

Quem dera numa fronteira fosse barrada
e com o poder da alquimia,
mudasse de onde inicia
e ficasse enclausurada!

Os momentos tristes
são como quem vive na lida,
não sente mais o calor do amor,
não se admira com a beleza do dia.
Como sorrir por sorrir, diga-me por favor!



Obs:Imagem da autora.







ENTRE A VERDADE E A MENTIRA
Padre Beto
www.padrebeto.com.br



Em uma mesma rua viviam os Millers e os Bergsons. As duas famílias eram muito amigas. As crianças haviam crescido juntas, as esposas visitavam-se todas as tardes e os senhores Miller e Bergson eram parceiros no jogo de tênis. Tudo caminhava bem até Hitler subir ao poder e o nazismo se tornar a ideologia do Estado alemão. A partir daí, os Bergsons, juntamente com outras famílias judias que moravam na Alemanha, começaram a sofrer todo o tipo de perseguição por parte dos nazistas. Toda a atmosfera anti-semita, porém, não afetou a amizade entre Millers e Bergsons. Em um determinado dia, os Millers ouviram que muitos judeus estavam sendo deportados para Auschwitz onde deveriam ser mortos. Assim, a família alemã resolveu esconder seus amigos Bergsons em sua casa até estes encontrarem um jeito de sair do país. Depois de algumas semanas, um oficial alemão bateu à porta dos Millers. O senhor Miller atendeu o oficial com muita cordialidade. Este, ao entrar na casa, foi logo ao assunto: "O senhor possui uma ótima reputação. É visto como uma pessoa honesta em todo o bairro, por isso eu vim lhe perguntar se o senhor tem alguma notícia sobre a família Bergson. Por acaso, alguém de sua família sabe se eles viajaram?" O honesto senhor Miller respondeu com certa admiração: "Os Bergsons? Faz algumas semanas que não vemos ninguém na casa ao lado!"

Para se dizer "verdade" ou "verdadeiro" em hebraico utiliza-se a palavra "emet" que significa, ao mesmo tempo, confiança. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, ou seja, são fiéis. Aqui a verdade está intimamente relacionada com a espera de que aquilo que foi prometido irá cumprir-se ou acontecer. Portanto, em hebraico, a verdade tem a ver com o futuro, com a concretização de algo que deve ser realizado. "Amém", que significa "assim seja", possui, por exemplo, sua origem na palavra "emet". Os gregos, por sua vez, utilizavam para designar a verdade a palavra "aletheia" que significa "não-oculto", "não-escondido". O verdadeiro é aquilo que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito. Aletheia, portanto, está relacionada ao presente, ao que as coisas são. Já a palavra latina "veritas" se refere aos fatos que já aconteceram, ou melhor, à narração exata dos fatos acorridos. A verdade em latim é um olhar para trás. A nossa definição atual de verdade constitui-se em uma síntese destas três concepções: ela se refere às coisas do presente (aletheia), à narração dos fatos passados (veritas) e à confiabilidade e fidelidade do futuro (emet). Uma das condições básicas para dignidade humana é possuir a característica da veracidade, ou seja, ser verdadeiro significa ter uma visão precisa da realidade, ser coerente com ela e manter-se fiel transmitindo confiabilidade. Não manter a verdade consiste em um declínio de vida e da própria dignidade, afirma Tomás de Aquino. As relações humanas (convivência, amizade, negócios...) tornam-se comprometidas a partir do momento que a veracidade deixa de estar presente. A mentira é um poderoso veneno em nossa dimensão interpessoal.

Veracidade não significa, porém, dizer a todos tudo o que se pensa e muitas vezes para se fazer um bem é necessário ocultar a verdade. Portanto, quando nos questionamos sobre a revelação da verdade, não podemos esquecer que a "veracitas" deve estar sempre acompanhada de outras virtudes como, por exemplo, a prudência, a discrição, o amor e a justiça. Muitas vezes, a resposta para a insistência alheia é a discrição. "Meu amigo tem um amigo, o amigo do teu amigo tem outro amigo... Portanto, seja discreto!" (Talmud). Ao sermos simplesmente transparentes corremos o risco da "veritas homicida", da qual nos fala Agostinho, ou nos vemos contagiados pela "verdademania", ou seja, a verdade a qualquer preço muito criticada por Kant. Existem situações que fazem com que a verdade seja tão condenável quanto a mentira, ou seja, as duas alternativas nos levam a um grande prejuízo. "Sobre a mentira e a verdade/ desabam as mesmas penas/ apodrecem nas masmorras/ juntas, a culpa e a inocência" (Cecília Meireles). Tomás de Aquino, apesar de não oferecer uma solução clara para o assunto, explica que é permitido, de uma maneira prudente, disfarçar ou encobrir a verdade. A omissão da verdade ou a parcial revelação da mesma torna-se uma alternativa ética quando valores como a dignidade e a própria vida humana estão em jogo. Portanto, para possuir honestidade, não basta a transparência, se faz sempre necessário o questionamento: qual o sentido de minha honestidade? Ela está servindo a quem? Pôncio Pilatos, o procurador romano que estava no governo da Judéia, ao interrogar Jesus perguntou-lhe o que era a verdade. Segundo o Evangelho de João, Jesus se silencia diante da questão.








Texto de DJANIRA SILVA
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/




Na voz do sino morre o silêncio. No apito da fábrica a voz do homem. Invasão de um mundo perturbado. O homem precisa dormir para sobreviver.
Dezembro das festas, das ruas, dos sons e das cores. Barracas, roda gigante, carrossel e barquinhos. O mundo árvore de Natal. As chuvas finas de novembro, caíam, dizia a mãe, para vestir o mundo para as festas. O presépio, a praça. Santos vestidos de gente. Gente com cara de santo espera a missa.
Entre as barracas e os brinquedos do parque eu esperava, esperava sempre. Se me perguntassem o quê eu não sabia. Desejava ser gente grande para deixar de esperar.
Noite feliz... noite feliz, o som caia da torre no meio da praça, nos meus ouvidos, no coração. Escreveu por linhas certas, certas lembranças. Até hoje não consigo apagá-las. Noite feliz...
Quis dar um presente a minha mãe. Dar o quê, se eu não tinha nada? No jardim de d. Argentina havia rosas. Minha mãe gostava de rosas e esperava a missa. O mundo inteiro esperava.


Obs: Texto retirado do livro da autora - Memórias do Vento.







FUTEBOL NA TV
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com





Imagine a cena...
Um casal sentado na sala assistindo um jogo do Flamengo com um desses timezinhos do interior valendo a classificação para o campeonato sei lá do que.
- Amor.
- Oi.
- Eu tô carente. Faz um cafuné.
Ele passa a mão pela cabeça dela, e embaralha os cabelos, uma atitude que nem de longe lembra um carinho.
- Pronto.
- Isso foi um cafuné?
Ele com os olhos vidrados na televisão.
- Foi.
Ela fica pensativa. Minutos depois ...
- Me dá um beijo.
Ele continua atento ao jogo.
- Ei!!! Um beijo.!!!
Ele vira para o lado e dá uma bitoca.
- Só isso?
Ele a beija. Ela de olhos fechados e ele com os olhos no último lance.
- Eu quero mais!!!
- Depois.
- De língua. Agora!!!
Ele dá um beijo rápido, estranho.
- Pronto. Agora chega! Deixa eu assistir ao futebol!
Ela se levanta desapontada do sofá.
- Ei.
Ela volta.
- O que é?
- Aproveita que você está em pé e trás uma cerveja pra mim.
Um sorriso irônico desponta nos lábios dela.
- Pode deixar amorzinho.
Ela pega aquela cerveja lá do fundo do congelador. A mais geladinha. A preferida dele. Rapidamente arquiteta um plano no espaço entre a geladeira e a sala.
- Amorrrr.
- Diga minha princesa. Cadê minha cerveja?
Ela mira o alvo e arremessa.
- Aiiii!!! Tá louca?
- Você não pediu a cerveja? Então? Tá aí.
- Precisa arremessar com tanta violência?
Ela volta para a cozinha e retorna como uma tijela de pipoca, uma barra de chocolate, uma lata de refrigerante e um pacote de batata fritas.
Ele lança um olhar de relance, um tanto assustado.
- Você vai comer tudo isso?
- Não eu trouxe para enfeitar a sala, não tá vendo?
Ele sorri diante da resposta ácida.
- Você vai engordar. Vai ficar uma branquela gorda e feia.
- E daí?
- E daí, eu é que não vou andar com uma baranga do meu lado.
- Engraçadinho. Não esqueça do que prometeu ao padre ‘até que a morte nos separe’.
- É mas não é ele que vai ter que aturar um filhote de dragão.
Irritada ela levanta e despeja a pipoca sobre ele.
- Você ta de TPM eu sabia!!!!
- Você é um bruto isso sim. Ingrato. Insensível. Onde eu estava com a cabeça quando fui casar com você!
Intervalo. Entra os comerciais.
- Amorzinho, Eu Te Amo. Fica calma que isso vai passar.
- Arrrrrrrhhh!.


Obs: Imagem enviada pela autora.







TEXTO de WALTER CABRAL DE MOURA
(wacmoura@nlink.com.br)



Um gato desbravador
adentra a primeira vez
recém-construído prédio.

Sobe a rampa lentamente
explora o ambiente
observa, escuta, sente
por assim dizer, indaga...

Aqui se senta, estaca
(eita gato bandoleiro)
enfim se coça, que tédio.

Prossegue sua viagem
errando pela garagem
no ermo desabitado
do novo prédio do lado.







IDENTIDADE CRISTÃ
D. Demétrio Valentini (*)



Nos primeiros tempos da Igreja, os novos cristãos, batizados na páscoa, usavam as roupas bancas durante toda uma semana, até o domingo seguinte. Era neste dia, portanto, como sendo hoje, que voltavam a usar as roupas comuns do cotidiano da vida, como todo mundo.

O símbolo das roupas brancas, conservadas durante toda uma semana, era muito eloqüente. Simbolizava a condição nova, que resultava do batismo, pelo qual eles tinham renascido para a vida de filhos de Deus e membros da Igreja, de pleno direito.

Mas as vestes brancas, usadas ao longo de toda uma semana de trabalho, lembravam também o compromisso assumido no batismo, de viver neste mundo com critérios novos, segundo os valores do evangelho, inserindo-os na realidade cotidiana.

Este compromisso era duplo. De um lado, o desafio de conservar limpas as vestes brancas, no embate cotidiano da vida, isto é, de conservar os valores da fé, e guiar sua vida por eles.

Por outro lado, o desafio de conviver com as outras pessoas que não eram cristãs. A condição nova de batizados e de cidadãos do Reino, não nos impede sermos ao mesmo tempo cidadãos do país em que vivemos neste mundo. O evangelho não inibe a vida humana, ao contrário, a ilumina com motivações novas, e a impulsiona com o vigor dos seus valores.

Celebrada a páscoa, retomadas nossas vestes comuns, não vamos esquecer o compromisso cristão de sermos sal da terra e luz do mundo. Nossa presença de cristãos é despretensiosa de privilégios, mas comprometida com valores. O próprio nos anima a sermos eficazes e discretos na sociedade em que vivemos. No dia da ressurreição ele mesmo se apresentou a Maria Madalena sob a aparência de um jardineiro. Enxergar seu mestre com roupagem diferente, humana, simples, deve ter feito parte da surpresa de Maria.

Aos discípulos de Emaús, Cristo se mostrou sob a forma de um viandante. Com estes paramentos da vida real foi celebrada a primeira eucaristia do ressuscitado, quando então os olhos dos discípulos se abriram e reconheceram que era o Senhor.

Pelo testemunho que damos, seremos reconhecidos como discípulos do Mestre que vestiu nossa roupagem humana para inserir em nossa vida a força do seu amor divino.


(*) (www.diocesedejales.org.br)





CNBB EM RITMO DE PÁSCOA
D. Demétrio Valentini (*)



De 22 de abril a primeiro de maio a CNBB estará realizando sua 47ª. Assembléia anual. A data é determinada pela Páscoa. Nesta época, em cada ano, os bispos vêm chegando das 270 dioceses do Brasil, para o seu encontro de dez dias.

Observadas as circunstâncias, é o tempo mais propício para reunir os bispos. Em primeiro lugar, porque na páscoa cada bispo se encontra em sua respectiva diocese, onde sua presença é indispensável para a realização das grandes celebrações que lhe cabe presidir por dever de ofício. Se é para convocar os bispos, é na páscoa que os encontramos em casa.

Mas a assembléia da CNBB em tempo de páscoa não é ditada só pela conveniência de época. A reunião de todos os bispos tem uma evidente semelhança com os acontecimentos do dia da ressurreição.

A cruz tinha desnorteado os apóstolos, e o germe da dispersão já corroia os vínculos da comunhão ente eles. No primeiro dia após o sábado, alguns já estavam se mandando de volta às suas antigas moradias, curtindo a frustração de suas esperanças, como os discípulos de Emaús.

Mas a notícia da ressurreição aos poucos foi de novo congregando os discípulos, tecendo entre eles um novo compromisso e uma nova consciência de serem depositários de uma causa que era preciso assumir e levar adiante. A ressurreição, na verdade, foi dando firmeza à Igreja, que a partir daquele dia foi se consolidando, e foi tomando consistência, toda ela derivada de Jesus Cristo, que então começou na verdade a ser compreendido na sua dimensão divina e na sua missão salvadora.

Assim continua acontecendo hoje. E´ ainda em Cristo Ressuscitado que a Igreja busca força para se reconhecer e para assumir a missão a ela confiada. Por isto, é muito significativo que depois da Páscoa os bispos se congreguem em assembléia, para de novo se sentirem reunidos em torno de Cristo, e dele receberem a paz, o perdão e a força do Espírito para cumprirem a missão, como aconteceu com os apóstolos.

Se olhamos a temática central da assembléia deste ano, percebemos ainda os reflexos de Aparecida. Aquela reunião representativa de toda a Igreja da América Latina vai se confirmando sempre mais como paradigmática, como evento revelador da atuação do Espírito de Deus, por ter captado a essência do Evangelho, de maneira sintética e dinâmica, expressando-o pelo binômio “discípulos e missionários de Jesus Cristo”. De fato, a atividade de Jesus pode ser sintetizada nestas duas palavras: ele formou discípulos, que se transformaram em missionários.

Nesta dupla dimensão, podemos identificar ainda hoje a tarefa da Igreja. Ela também precisa formar discípulos, para transformá-los em missionários.
Pois aí está o tema central desta assembléia: a formação dos presbíteros. Mas não só eles. Todos os membros da Igreja precisam se tornar discípulos de Cristo. Por isto o outro tema, a iniciação cristã, destinada a todos.

Mas não basta formar discípulos. Se eles não assumem a missão, é vã a sua formação. A assembléia estará atenta a esta dimensão indispensável, analisando propostas concretas da “missão continental”, que Aparecida propôs.

Numa de suas aparições como ressuscitado, Jesus surpreendeu os discípulos pescando no mar da Galiléia. Era de madrugada. Nada tinham apanhado durante a noite. Sob a palavra de Jesus, lançaram de novo a rede, que se encheu de 153 peixes.

Pois bem, o tema central de Aparecida, “discípulos e missionários”, que ainda continua presente nas assembléias da CNBB, é como as duas pontas da rede. Puxando-as, vem a rede inteira. Resta ver se vem vazia, ou cheia de peixes. Depende do compromisso dos discípulos de Cristo com as causas da humanidade. Jesus tinha dito que seriam pescadores de homens. A rede da Igreja precisa estar repleta da problemática humana.

Como no tempo dos apóstolos, o Ressuscitado pede à CNBB que lance as redes na realidade do povo brasileiro. Há um grande cardume de problemas, que aguardam a solicitude missionária da Igreja para serem assumidos à luz da Ressurreição, e transformados em caminho de vida nova para todos.


(*) (www.diocesedejales.org.br)






OS PRECONCEITOS DE ONTEM
Vladimir Souza Carvalho (*)



Joãozinho Retratista, como fotógrafo, enclausurado em Itabaiana, na década de quarenta, fazia coisas que o cão duvidava em termos de fotografia. Uma delas, foi personagem principal a jovem, das melhores famílias locais, que aparecendo no seu atelier, para tirar uma foto 3x4, terminou figurando em uma montagem, na qual aparecia de calça comprida e de bota, segurando as rédeas de um cavalo. A façanha da montagem, na qual Joãozinho Retratista aproveitava a fotografia de uma artista de cinema, repousava na falta de recursos técnicos da época e no fato de o fotógrafo trabalhar ainda com negativos de vidro, conseguindo, ainda assim, alcançar o grau da perfeição.

Mas, em casa, quando a jovem mostrou a foto aos pais, o desfecho foi trágico: apanhou. Não era recomendável uma moça de família vestir uma calça comprida, e, ainda mais, aparecer em uma fotografia com o traje condenado. Os pais da jovem não concebiam que, da foto, só era da filha a cabeça, porque o resto do corpo, como a blusa, calça comprida e etc., pertencia a uma artista americana. O pau comeu. A foto foi rasgada e a moça caiu na reprimenda da pancada. Mas, Joãozinho Retratista não se abalou. A foto permaneceu a vida inteira em exposição no seu atelier, ao lado de outras, pendurada na parede, ou em porta-retrato de vidro. O atelier era dele e a produção artística também. Os pais da jovem que fossem se danar na casa do atraso e do inferno, deve ter pensado. Ora bolas.

O atraso, é bom ressaltar, não era obra exclusiva dos pais da jovem, um dos quais, a mãe, prima de minha avó paterna. O atraso era fruto da época, atraso que exornava o mundo interiorano, no qual Itabaiana se situava. Joãozinho Retratista entrou com a idéia e a façanha da montagem. A jovem, com o rosto na foto e a surra tomada. A fotografia ficou, eu vi, todos viram, Joãozinho Retratista contando para todo mundo, por três décadas adiante, a história da foto e suas conseqüências. A gente se espantava, sem se lembrar que a foto foi produzida na década de quarenta, estando a ouvir o relato do fato na de setenta, ou seja, trinta anos depois.

Itabaiana era um reduto fechado, que não abria as portas para nenhum sintoma de civilização, como, aliás, deveria ser todo o interior sergipano, e, um pouco menos, a capital. Uma professora do Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, vinda de Aracaju, no meio da década de trinta, foi beijada pelo namorado no oitão da Igreja Matriz. Talvez até um leve ósculo no rosto. A cena foi vista. A cumeeira moral balançou. A diretora da escola, uma solteirona juramentada, vaticinou: esse negócio de moça de Aracaju ensinando em Itabaiana não dava certo. A mesma reação, ou quase idêntica, a do padre Benvindo Tito de Jesus, quase cem anos antes, quando Itabaiana ainda era vila, ocasião em que sua sobrinha, num passeio pelos arredores do centro urbano, foi beijada por Tobias Barreto. Deus do céu! O professor de Latim da pequena mocidade itabaianense foi chamado de mulato pela ousadia do beijo.

Mas, não era só em Itabaiana. Aqui, em Aracaju, um itabaianense, meu amigo, de quem ouvi o relato, já noivo, no final da década de sessenta do século passado, precisava ir três vezes ao dia se apresentar ao futuro sogro, ou seja, pela manhã, pela tarde e pela noite, a fim de deixar o velho tranqüilo, porque a noiva tinha viajado a Itabaiana para passar uns dias na casa dos futuros sogros. No caso, é bom recordar que a estrada, que ligava Aracaju a Itabaiana, não era ainda asfaltada, levando um carro, por mais rápido que fosse, no mínimo, um pouco mais de uma hora e meia no percurso da piçarra e da poeira. Mas, o velho queria resguardar a moral da filha e o meio que encontrava era aquele.

Dona Yáyazinha de seu Vivi, uma alegre e simpática senhora, sentada na calçada da casa, via a mulherada passar, se rebelando contra aquelas que traziam as pernas cabeludas. Não continha a sua ironia, que o filho mais novo, Alberto, herdou. Ante aquele monte de cabelos, esbravejava que, se ali, no caminho, era aquela mataria toda, imagine na praça da feira, para onde os caminhos convergiam, como não deveria estar. Mas, a mulherada não raspava as pernas, porque era pecado, alguém deve ter dito a centenas de anos atrás e a sentença ficou transformada em norma que ninguém ousava revogar.

Baile com luz negra foi um horror. A primeira vez que, na Associação Atlética de Itabaiana, década de setenta, mais precisamente, no seu início, num baile, apagaram as luzes, para ficar só uma penumbra, um cidadão, cuja filha dançava com o namorado, acendeu todas as lâmpadas, à revelia da direção do clube. Quem quisesse dançar no escuro que fechasse os olhos, proclamou no alto de sua autoridade de pai, alegando que, nem no Rio de Janeiro, se fazia baile assim, no escuro. Ninguém, da diretoria do clube, ousou apagar, outra vez, as lâmpadas, pelo menos, naquela noite.

Juiz de Direito de Nossa Senhora da Glória, no final da década de setenta, viajando de ônibus, ao passar por Feira Nova, ouvi de uma senhora, ao meu lado, vendo as alunas do ginásio com short, dentro da aula de educação física, que uma mãe, de respeito, não deixaria nunca uma filha sair de casa daquele jeito. Filha dela, de short, assim, na rua, na presença de homens, nem pensar. Foi nessa mesma época que um estabelecimento comercial em Itabaiana resolveu colocar, na vitrina, um manequim, em exposição permanente, e, ainda mais, portando um biquine. O velhinho, lavrador aposentado, chapéu na cabeça e chinelo gasto nos pés, morador da cidade, parava, olhava e deitava falação. Aquilo era o final do mundo, berrava e proclamava. Mas, não saia de perto, o olhar de vira-lata faminto na apreciação das bonitas formas do modelo, ainda que a boca, contrariando o coração, entoasse canto de condenação.

Os preconceitos foram, aos poucos, sendo derrubados. Há sempre a infantaria, que sai na frente, Leila Diniz pulando muro e impondo comportamentos novos, como, antes dela, Chiquinha Gonzaga ditou moda. Da Corte para as províncias, as revoluções sociais se fizeram de forma lenta, mas, gradativamente, os sintomas chegando, aqui e ali, acabando com toda a cautela e exagero do vestido longo a esconder o corpo. A televisão deve ter contribuído muito para a alteração de atitudes, com a liberação de roupas, gestos, e atitudes.

Joãozinho Retratista, estivesse vivo e atuando ainda como fotógrafo, ia gostar, mesmo sem ter idéia exata de que a sua montagem foi um dado pioneiro de evolução na década de quarenta do século passado. E se tivesse paciência para aprender a navegar na internet, ia, ainda, achar que a montagem feita, a que gerou uma surra na jovem conterrânea, minha parenta não mui distante, não se constituía, nem de longe, em um minúsculo e imperceptível grão de areia no meio do deserto de Saara das fotos que circulam nos quatro cantos do mundo. Não só ia achar, como, cá pra nós, ia gostar também. E muito.


( * ) vladimirsc@trf5.jus.br
Publicado no Correio de Sergipe







EM ALGUM MOMENTO
LimoRoc


Em um furacão de beleza o coração contempla o murmúrio do mar...
Não importa onde esteja...
O lugar do coração mora no desafio de ser...
Em algum momento escrevi poesias,
publicadas e elogiadas..
Imaginava ter findado a veia de soluços e sonhos...
Percebo ser frase reticente a vagar na mediocridade de passos temerosos,
ainda que ousados e assumidos...
Permito-me outra vez poetizar a vida em meu jeito de ser...

27.08.2006





NOVO MODELO DE SOCIEDADE
Frei Betto



Ao participar do Fórum Econônimo Mundial para a América Latina, a 15 de abril, no Rio, indaguei: diante da atual crise financeira, trata-se de salvar o capitalismo ou a humanidade? A resposta é aparentemente óbvia. Por que o advérbio de modo Por uma simples razão: não são poucos os que acreditam que fora do capitalismo a humanidade não tem futuro. Mas teve passado?

Em cerca de 200 anos de predominância do capitalismo, o balanço é excelente se considerarmos a qualidade de vida de 20% da população mundial que vivem nos países ricos do hemisfério Norte. E os restantes 80%? Excelente também para bancos e grandes empresas. Porém, como explicar, à luz dos princípios éticos e humanitários mais elementares, estes dados da ONU e da FAO: de 6,5 bilhões de pessoas que habitam hoje o planeta, cerca de 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, dos quais 1,3 bilhão abaixo da linha da miséria. E 950 milhões sofrem desnutrição crônica.

Se queremos tirar algum proveito da atual crise financeira, devemos pensar como mudar o rumo da história, e não apenas como salvar empresas, bancos e países insolventes. Devemos ir à raiz dos problemas e avançar o mais rapidamente possível na construção de uma sociedade baseada na satisfação das necessidades sociais, de respeito aos direitos da natureza e de participação popular num contexto de liberdades políticas.

O desafio consiste em construir um novo modelo econômico e social que coloque as finanças a serviço de um novo sistema democrático, fundado na satisfação de todos os direitos humanos: o trabalho decente, a soberania alimentar, o respeito ao meio ambiente, a diversidade cultural, a economia social e solidária, e um novo conceito de riqueza.

A atual crise financeira é sistêmica, de civilização, a exigir novos paradigmas. Se o período medieval teve como paradigma a fé; o moderno, a razão; o pós-moderno não pode cometer o equívoco de erigir o mercado em paradigma. Estamos todos em meio a uma crise que não é apenas financeira, é também alimentar, ambiental, energética, migratória, social e política. Trata-se de uma crise profunda, que põe em xeque a forma de produzir, comercializar e consumir. O modo de ser humano. Uma crise de valores.

Desacelerada a ciranda financeira, inútil os governos tentarem converter o dinheiro do contribuinte em boia de salvação de conglomerados privados insolventes. A crise exige que se encontre uma saída capaz de superar o sistema econômico que agrava a desigualdade social, favorece a xenofobia e o racismo, crminaliza os movimentos sociais e gera violência. Sistema que se empenha em priorizar a apropriação privada dos lucros acima dos direitos humanos universais; a propriedade particular acima do bem comum; e insiste em reduzir as pessoas à condição de consumistas, e não em promovê-las à dignidade de cidadãos.

Há que transformar a ONU, reformada e democratizada, no fórum idôneo para articular as respostas e soluções à atual crise. Urge implementar mecanismos internacionais de controle do movimento de capitais; de regular o livre comércio; de pôr fim à supremacia do dólar e aos paraísos fiscais; e assegurar a estabilidade financeira em âmbito mundial.

Não haveremos de encontrar saída se não nos dermos conta de que novos valores devem ser rigorosamente assumidos, como tornar moralmente inaceitável a pobreza absoluta, em especial na forma de fome e desnutrição. É preciso construir uma cultura política de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, e passar da globocolonização à globalização da solidariedade.

As Metas do Milênio e, em especial, os sete objetivos básicos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, de 1995, devem servir de base a um pacto para uma nova civilização: 1) Escolaridade primária universal; 2) Redução imediata do analfabetismo de adultos em 50%; 3) Atenção primária de saúde para todos; 4) Eliminação da desnutrição grave e redução da moderada em 50%; 5) Serviços de planificação familiar; 6) Água apta para o consumo ao alcance de todos; 7) Créditos a juros baixos para empresas sociais.

A experiência histórica demonstra que a efetivação dessas metas exige transformações estruturais profundas no modelo de sociedade que predomina hoje, de modo a reduzir significativamente as profundas assimetrias entre nações e desigualdades entre pessoas.



Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo e outros, de “O desafio ético” (Garamond), entre outros livros.


Obs: O artigo acima só poderá ser reproduzido com autorização do escritor.







FOLHAS AO TEMPO...
Maria Inês Simões - Bauru/SP
www.mis.art.br
mis@mis.art.br



Katharina desligou seu computador às 23h30, não porque estivesse cansada mas já era hora de dormir... O dia??? 25 de setembro de 2003 dirigiu-se para a cama, ainda pensou em um beijo azul que lá fora rodopiava com o vento. Um beijo dirigido ao amor... Dormiu.

- Kath são 6h30 da manhã acorde!!!

- Senhor, ainda estou com sono....

- Vc se esqueceu, hoje é dia de vc varrer o quintal...

- Senhor, não está ouvindo a ventania lá fora, hoje... O Senhor caprichou em?... Como posso varrer o quintal com este vendaval?

- Vai!... Deixa de ser preguiçosa, levante-se e venha varrer o quintal...

- Senhor... Não vou conseguir o vento está muito forte, e as folhas não param quietas um segundo... Conhece o tamanho de meu quintal... O tempo que vou perder... Um trabalho inútil... Não vou conseguir.

- Kath.. Kath... Seu objetivo hoje pela manhã seria varrer o quintal, e já tinha te preparado uma lição... Vem varrer o quintal vem... Acorde para ouvir o quanto preciso de vc... O quanto te amo... E preciso de vc.

- Ok... O Senhor venceu... já me acordou mesmo... Não vou conseguir dormir mais, mesmo que quisesse... >:-(

E Katharina levantou-se, já não mais com sono. Dentro de si uma sementinha de raiva... Queria varrer o quintal sim, assim como queria enviar um certo beijo azul ao universo online&offline. Mas o vento forte lá fora... Entoava seu som revelador. Pegou a vassoura. A ventania soprava intensa. Ainda tentou questionar.

- Não vou conseguir!!! E mais, veja as unhas dos meus pés, estão impecáveis. Ontem fui a pedicuro, e se varrer o quintal hoje com esta ventania... Vão ficar horríveis.

- Kath... Vai desistir de seu objetivo e não atender ao meu pedido por causa de suas unhas ou por causa de uma ventania? Coloca uma meia um tênis.... Vá se calçar depois cumpra sua tarefa.

E assim Katharina fez... Colocou uma meia um tênis, pegou a vassoura e foi à luta. Já nas primeiras vassouradas, resmungou.

- Não vou conseguir, o vento se faz forte. O Senhor poderia acalmá-lo por um momento, ou então parar com este vento até que eu varra o quintal. Não pode?????

- Não posso!!! Faz parte da lição. Ouça Katharina, muitas ventanias e tempestades vêm por ai. E vc terá que enfrentá-las.... Todas. Por mais que elas sejam impetuosas, vc terá que colocar muita ordem e limpeza no quintal. É sua missão. Sei que em momentos assim, como vc disse, muitos dirão “Senhor, mas por que nos envia ventos tão fortes, tempestades, maremotos, terremotos, mortes ... Por mais que tentemos sobrevivemos está impossível”. Culpa do Senhor? E o que dirás Katharina? Vc conhece a tecnologia. Aos homens entreguei sabedoria, mas estão usando-a contra si próprios, contra seus irmãos. Máquinas que mudam o tempo são construídas. Nem sempre os ventos, as tempestades, maremotos, terremotos serão enviados por mim. São frutos do poder do homem, em ação, a sua destruição. Em pequenas e grandes mostras de seu poder diante das nações. Aquela que controlar melhor o tempo e o momento, será a maior. E pior Katharina ainda me culparão pelas tragédias ocorridas em suas investidas.

- Senhor, entendo... Mas não consigo varrer o quintal, por mais que eu tente deixá-lo limpinho... Não consigo... Varro... Varro.... E as folhas só obedecem ao vento... E as folhas são enviadas novamente para o local onde eu já havia varrido e tudo se espalha novamente. Mas não desisto... Senhor... Em algum momento há de parar de ventar e ai consigo ajuntar as folhas secas e limpar o quintal.... :-)

- Katharina ouça....Não vai conseguir assim... Vc está varrendo contra o vento e o tempo... Pois, não vai parar de ventar neste momento. Tente varrer a favor do vento e verá que ganhará tempo e cumprirá sua missão.

E assim Katharina fez, varreu parte por parte do quintal, e sempre à favor do vento, descobriu os cantos onde tinha a melhor chance de ajuntar as folhas e assim aproveitava o momento e recolhia o que precisava ser recolhido, e com calma seguia limpando o quintal. Deixou tudo limpo. Porém a ventania ainda continuava forte. Mas ela estava feliz havia cumprido sua missão. Pensou ainda em um beijo azul, e sentiu-se mais feliz ainda. Os momentos de vendavais são favoráveis aos beijos azuis, pois o vento os levam com maior intensidade.

- Pronto Senhor, terminei de varrer o quintal, o que devo fazer agora?

- Heheh... Volte ao seu computador muito ainda a aprender sobre beijos azuis, vendavais, maremotos, terremotos... chips... e tecnologia.







PENSANDO ALTO
Therezinha Paiva
07.02.2009



Dias de alegria, de júbilo, de realizações mis.
Dias tristes, cinzentos, ameaçadores.
Quem não os viveu? Quem não os vive?
Importante se faz que de ambos tiremos lições e sejamos gratos por tudo que nos permitiram realizar e crescer.
Quando felizes, queremos eternizar os momentos; quando terríveis, queremos apagá-los e com isso saímos em busca de outros caminhos, o que os torna de grande valia.
Penso que o importante é o caminhar, o buscar, o realizar sem que importe muito onde chegaremos. Uma vez conquistado, o foco de nossa atenção se desvia e sai em busca do novo, do distante, que nos acena e leva a novas caminhadas, novos conhecimentos, novo crescimento pessoal, profissional, social, psíquico. Novos rumos a atiçar nosso eu; como parar? Parar?
Não vivemos sozinhos. Da mesma forma que buscamos amor, carinho, proteção, oportunidades, temos que estender nossas mãos para aqueles que nos cercam e merecem nossa amizade, nosso respeito e admiração e tanto quanto nós desejam conquistar seu espaço, traçar seu caminhar e colher seus frutos.
Pensem! Reflitam! Sonhem! Busquem! Realizem!
Sejam vocês sempre e sempre!
Façam felizes os que os cercam!
Sejam felizes!
Sejam amigos-maiores!
Um abraço e o meu carinho.



Obs: Imagem enviada pela autora







“PAZ E TERRA PARA OS POVOS INDÍGENAS”
Marcelo Barros*
(irmarcelobarros@uol.com.br)



Este é o tema da “Semana dos Povos Indígenas, 2009”, que, em algumas regiões, foi comemorada na semana passada e, em outras, celebra-se nesta. Atualmente, estas comemorações envolvem, em primeiro lugar, os próprios índios. Em muitas aldeias, circulam propostas de reflexões e discussões comunitárias sobre o tema da Semana. E como na maioria das culturas indígenas, tudo se resolve com festa, se festejam a vida e a esperança.

No Brasil, atualmente, a realidade de muitos povos indígenas ainda é precária e perigosa, atacada por grileiros sem escrúpulos e posseiros mal informados. Ainda em 2009, o número de lideranças indígenas assassinadas é escandaloso. Em todo o país, há cerca de 600 áreas indígenas demarcadas. Diversas outras aguardam reconhecimento. Em 1973, o Estatuto do Índio estabelecia o prazo de cinco anos para se fazerem todas as demarcações pendentes. Não se cumpriu esta decisão legal. A Constituição de 1988 colocou novamente o mesmo prazo. Até agora, pessoas com interesse nas terras indígenas continuam pressionando para que não se cumpra a Constituição. O caso da Raposa Serra do Sol é emblemático. Graças a Deus, depois de decreto do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso (1994), seguiram-se vários julgamentos nas instâncias regionais, embargos e muitos sofrimentos. Finalmente, dez anos depois, em 2009, o próprio Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa às 19 comunidades indígenas despojadas de suas terras.

No Brasil, os povos indígenas são uma minoria ínfima. Não representam nenhuma ameaça para o governo e a sociedade. As terras indígenas são juridicamente propriedade da União, de uso-fruto dos índios. O único risco que o Brasil corre em deixar que os índios continuem sendo vítimas de uma injustiça de cinco séculos é condenar-se a ser um país cada dia mais injusto e violento, além de privar o povo brasileiro da riqueza cultural que estas comunidades nos trazem. Reconhecer os direitos dos índios beneficia não apenas a índios, mas a todo o povo brasileiro que aprende a conviver melhor com a diversidade cultural e assume mais profundamente suas raízes étnicas. É este o sentido de celebrar a Semana dos Povos Indígenas e procurar participar pessoalmente da caminhada dos índios. A Paz, conceito fundamental para muitas culturas, significa mais do que, simplesmente, a ausência de conflitos. Até porque, na história, muitas vezes, os conquistadores vieram como os que traziam a paz. Para os povos indígenas, como para a Bíblia, a Paz é vida assegurada, saúde e justiça.

Neste caminho da Paz, a Terra é elemento essencial. Para as comunidades originárias, a relação com a Terra é espiritual e mística. A Terra é como uma divindade a ser venerada e respeitada em toda a sua integridade. Sem terra, os grupos indígenas não sobrevivem. E este foi o problema do século XX, quando os brancos, construtores do progresso, acreditavam que deveriam integrar a todos no mesmo modelo de desenvolvimento e que a cultura ocidental é superior a todas.

As comunidades índias são fonte de sabedoria e enriquecimento cultural para toda a sociedade brasileira. As terras indígenas são territórios protegidos da poluição e destruição ambiental. Técnicos agrícolas têm aprendido com povos, como os Ianomami, o cultivo de mais de 40 tipos de mandioca, quando só conhecíamos dois. Os índios ensinam a plantar sem destruir as matas e empobrecer a terra. E nos territórios indígenas, a integridade de nossas fronteiras é mais protegida.

Precisamos nos unir às comunidades indígenas nesta caminhada que o 9º Fórum Social Mundial mostrou em Belém (janeiro de 2009): comunidades indígenas e sociedade civil brasileira unidos por uma nova ordem social, econômica e cultural. Um outro mundo é possível.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
www.empaz.org/







RECONCILIAÇÃO – É GRATUIDADE DE DEUS
Jaime Sidônio
(psjaime7@hotmail.com)



Ao fazer a viagem ao nosso interior para o encontro com a própria verdade teremos com certeza uma visão clara e real daquilo que somos. E o que somos afinal? Somos a nossa história passada e presente. E essa história é o misto da maravilha de Deus em nós e dos nossos limites e fragilidades.

Essa viagem e esse encontro não são fáceis. Eles nos causam temor e tremor. E sabem por quê? Porque sabemos que nos levarão a nos confrontar com realidades que não gostaríamos que fossem verdade.

É preciso muita coragem. É preciso acreditar que Deus nos ama e nos espera para o grande abraço. Isto, porém, exige que entremos num profundo processo de reconciliação, assumindo diante de Deus, das pessoas e de nós mesmos toda a nossa realidade de fraquezas. E devemos fazer isso na gratuidade, animados apenas pela certeza de sermos amados pois “o amor de Deus foi derramado em nossos corações” (Rm 5,5)







CULTURA INDÍGENA
Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


Existem no Brasil cerca de 160 povos indígenas, com um população de mais ou menos 730 mil habitantes, a maior parte vivendo na Amazônia. São eles todos brasileiros(as)? Alguém tem dúvida disso? Sim! Os ignorantes, os preconceituosos e os oportunistas que invadem suas terras para fazer negócio. E os outros(as) que admitem que os indígenas são brasileiros tais como os não índios, será que admitem também que eles têm direitos ancestrais sobre a natureza onde eles habitam? Pergunta pertinente. Afinal, os indígenas devem estar submetidos a todas as leis penais do país? Pode a sociedade não indígena exigir que os indígenas falem a língua portuguesa, porque são brasileiros?

Cada povo indígena tem suas leis mais antigas do que todas as constituições brasileiras, eles têm sua cultura, sua religião, seu próprio modo de viver e conviver com a natureza e seus irmãos. Também eles têm seu código de conduta, um tipo de código de leis penais. Por isso, a constituição brasileira garante a todos os povos indígenas uma proteção especial, desde o famoso marechal Rondon, um militar de visão humanista, que bem compreendeu toda essa particularidade dos povos indígenas.

O que será então que está por trás dessa urgência dos legisladores do Congresso nacional em modificar a Constituição Nacional na questão dos indígenas? Quem tem manifestado publicamente seus preconceitos anti indígenas são militares sem o espírito de Rondon, latifundiários que invadem as terras indígenas e seus teleguiados políticos do Congresso nacional.

Neste momento está em andamento lá no congresso nacional, um projeto de lei para punir as infrações cometidas por um indígena, igual como a lei penal prevê para um não índio. Diz o projeto que o índio tem capacidade de compreender o significado de seus atos. É evidente que o índio adulto tem sim capacidade de compreender as coisas da vida, inclusive seus atos. Assim como um árabe tem capacidade de compreender seus atos, e assim como um chinês também. Cada povo tem seu código de conduta, quem nem sempre é igual ao de outro povo.

A questão é outra, cada um desses seres humanos, como o indígena têm suas leis e costumes próprios e diferentes da constituição brasileira.

Os congressistas lá em Brasília, tão complacentes com os variados crimes do colarinho branco, querem com esse projeto de lei, submeter todos os indígenas ao código penal brasileiro, como se eles não tivessem seu próprio código de conduta herdado de seus ancestrais.

Como se eles nunca fossem punidos pelos legisladores de seu povo. Políticos que insistem em mudar a constituição para tratar os povos indígenas em igualdade com os não índios, são defensores dos interesses dos Quartieros da vida em Roraima, no Mato Grosso, em Rondônia e na Amazônia toda, que querem as terras e os minerais das terras indígenas. Os que não admitem o direito dos indígenas às terras demarcadas em regime contínuo.

Não se ouve falar que algum assassino dos índios Guaranis esteja na cadeia, não se ouve falar que os garimpeiros de diamantes lá em Rondônia estejam no presídio. Os políticos de Brasília e de Roraima não estão preocupados em criar leis que considerem crime hediondo a invasão das terras indígenas no Mato Grosso do Sul, como entre os Ianomamis os da Raposa Serra do Sol em Roraima.

Estranho projeto de lei que quer ser rigoroso com os povos indígenas, mais estranho ainda deputados e senadores que são complacentes e generosos com colegas, com vários processos por corrupção e improbidade, mas ainda transitando sorridentes entre seus pares.

Ainda vale o ditado que diz: “me diz com andas e te direi quem és...”







LOUCURA
Amanda Barros (*)
mandok_pucca@hotmail.com



* Loucura é abaixar a cabeça se te humilhares, é dizer que és incapaz, é desistir dos teus sonhos.
* Loucura é ter medo dos teus inimigos, é deixar escapar o que cativastes, é não acreditar em si mesmo.
* Loucura é perder a vontade de jogar, se perdestes uma vez, é desistir de viver, por causa dos obstáculos que a vida de impõe.
* Loucura, é dizer “NÃO” a quem te quer bem, é achar que nada mais vai dar certo em tua vida; é amar quem te despreza e desprezar quem te ama.
* Loucura, é só viver na realidade, sem fantasias, é pisar em quem um dia te fez mal, é guardar mágoa dentro de si.

*LOUCO É AQUELE QUE NUNCA AMOU!!!


(*) Aluna da 8ª série


Terça-feira, Abril 14, 2009






NÃO ESTOU LHE VENDO
Rivkah Cohen



Desde cedo
aprendemos a apontar
e a repetir conceitos!
É doído o que vou dizer,
mas os pais têm muito a ver
com esse erro!

Mostram para as crianças
o que é fácil aceitar
e o que nem se deve ter esperança
de ser aceito,
colocando assim, mordaça e freio!

Daí porque vemos
tanto adulto
falando e sendo
o que não vai destoar
e ocultando o que sente!

Sigo meu curso
buscando o que não está latente,
mas sem medo de errar
ou começar novamente.

Sei lá,
mas acho que estamos aqui
para aprender a andar.
É claro que vamos cair,
mas aprenderemos a fazê-lo direito.

Os antigos costumam falar:
"Vivendo e aprendendo".
Mostre sua forma de pensar!
O que traz no peito!

Uns podem lhe estranhar,
mas outros vão gostar
e será de você mesmo.

Portanto,
pare de representar,
enfrente caras,
bocas e dedos!

Você foi convocado a lutar,
mas por enquanto,
não estou lhe vendo!



Obs: Imagem da autora.







COPLAS SIN TIEMPO
JORGE EDUARDO RIVERO
jorgeeduardorivero@gmail.com



RECLINA TU CABEZA EN MI PECHO,
ABANDONA TU DESCONCIERTO.
VEN A MIS BRAZOS,NO VES?
REGRESE DEL PAIS DE LOS MUERTOS

AUNQUE SOLO SEA UNA MENTIRA,
EN UN TIEMPO SIN MEDIDA,
CINCO MINUTOS DE LOS TUYOS
PARA MI ES TODA UNA VIDA.

NO MEZQUINES MAS TUS BESOS,
Y ENTREGATE,A MI,SIN MESURA
QUE EN EL POCO TIEMPO QUE POSEO
SOLO ABREVA LA TERNURA.

REFUGIATE EN EL DESEO,
ASILATE EN MIS ANHELOS,
QUE EN MIS LABIOS SIN TIEMPO
SIGUE LATIENDO UN "TE QUIERO"

TE QUIERO EN MI PROPIO TERRITORIO
SIN PROMESAS,SIN RENCORES,
PARA POBLARTE DE BESOS,
PARA HABITARTE DE AMORES

SIENTES COMO LA VIDA SE ESCAPA?
HUYE QUIEN SABE HACIA DONDE
Y,TU QUE LLAMAS EL MAÑANA
Y,AQUI SOLITARIO MI AMOR RESPONDE.

HAGAMOS QUE ESTE AMOR SEA POSIBLE,
QUE EL FUTURO DURE UN MINUTO
PARA HUNDIR EN LA ETERNIDAD LOS CUERPOS
ASI NUESTRAS ALMAS NO ESTARAN DE LUTO.


14/01/09







- COZENDO INTRIGAS
Malu Nogueira
(alines.veras@hotmail.com)



Um indivíduo sozinho consegue destruir outro semelhante ou minar a confiança que alguém lhe deposita. Ele é capaz de, com mais alguém, arruinar vidas. Basta soltar seu veneno que, levado a outra pessoa, é transportado a uma outra, que, por sua vez, cruza-se a outra, que leva a outra e assim a teia é tecida de um dia ao outro, até que todos se enredem no veneno destilado e não possam dele escapar, sem que saiam feridos.
Conta-se que, um homem dissimulado levantou um falso a alguém. Algum tempo depois, esse mesmo homem sentiu-se incomodado pelo boato que fez e procurou ajuda de um homem sábio, no intuito de desfazer o mal que fizera.
O sábio o ouviu e, como penitência, mandou que ele depenasse uma galinha e colocasse as penas dentro de um saco, fosse até a estrada e lá saísse jogando as penas para o lado direito, depois para o lado esquerdo, sempre caminhando para frente, até jogar todas elas. Ao final, voltasse pelo mesmo caminho e apanhasse todas as penas que antes jogara ao vento.
O homem fez o que o sábio lhe ordenara, mas, percebeu que não conseguia apanhar nenhuma pena. Voltou ao sábio, dizendo-lhe que não conseguira cumprir a penitência. O sábio disse-lhe que assim era com o que ele tinha falado, quando fez a calúnia: por mais que se empenhasse, jamais conseguiria desfazer o mal feito àquela pessoa.
Assim, como disse João Cabral de Melo Neto: “um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará sempre de outros galos”, também, o homem fofoqueiro não tece uma fofoca sozinho. Ele precisará sempre de outro boateiro, para que esse ouça sua fofoca e passe a outro, que leva a outro e que lance a outro, que cruza a outro, fazendo da fofoca a sua arma mortífera.







A FORÇA DA RESSURREIÇÃO
D. Demétrio Valentini (*)



Celebrada a Páscoa, o ano está abençoado. Esta a certeza que podemos ter, depois de feita a caminhada da quaresma, que culminou na semana santa, e se concluiu com a alegre celebração da Ressurreição do Senhor!

Está garantida a vitória da vida sobre a morte. Diante da pujança do Cristo saindo ressuscitado do sepulcro, vem espontânea a pergunta: "Onde está, ó morte, a tua vitória?"

A vitória está com a vida, que se manifesta exuberante na glória do Senhor ressuscitado.

Está garantida a vitória do amor sobre o ódio. Ficaram em frangalhos as tramas traiçoeiras que armaram a condenação de Jesus. Nem existe mais lugar para a sua memória, ofuscadas que foram pelo brilho do Ressuscitado.

Está garantida a vitória do perdão sobre a vingança. Não há acerto de contas, só existe a demonstração de ternura e de compaixão do ressuscitado que transmite paz e reconciliação.

Está garantida também a vitória da fraternidade e da união sobre a discórdia e a dispersão. Aos poucos, a notícia da ressurreição vai congregando de novo os discípulos e refazendo sua comunidade.

Tudo isto foi possível pelo poder de Deus, que colocou sua ação em favor da vida, ressuscitando o Senhor do sepulcro.

A Páscoa nos faz experimentar, cada ano, a força da graça de Deus. A vida que temos é dom gratuito, que nos vem do Senhor da vida. Agora, o ano inteiro somos convidados a permanecer em comunhão com Cristo, com quem fomos identificados pelo batismo, para que ele continue nos sustentando com a força de sua ressurreição.

Podemos viver a páscoa ao longo de todo ano, na medida em que acolhemos em nós a vida nova que o Senhor ressuscitado no oferece.



(*) www.diocesedejales.org.br





PÁSCOA E CRISE
D. Demétrio Valentini (*)


À primeira vista, parece que páscoa não tem nada a ver com crise. Na verdade, a páscoa surgiu da mais antiga, e da mais natural das crises, a crise do ciclo anual da vida em nosso planeta.

Faz parte da dinâmica da vida a luta constante pela sobrevivência. O momento mais preocupante é quando a vida aparentemente perde sua força, no declínio do inverno, e ameaça se extinguir.
E´ então que surge o prodígio maior. De dentro da morte, as forças vitais se reaglutinam, e todo o universo parece conspirar em favor da vida, que retoma vigor e exuberância na manifestação da primavera.

Foi para celebrar este triunfo natural da vida sobre as forças da morte que surgiu a primitiva páscoa. Antes de ser apropriada pelo povo de Israel como festa histórica de sua libertação do Egito, a páscoa já era celebrada pelos povos que experimentavam com mais intensidade o contraste entre os rigores do inverno e os encantos da primavera.

A páscoa começou sendo a festa que cantava a vitória da vida sobre a morte em nosso planeta.

Neste contexto, o declínio da vida, por seu esgotamento natural e pelas condições adversas do inverno, era a oportunidade para o reencontro das energias que lhe davam novo impulso. A crise era oportunidade de renovação. Fazia parte do processo vital, e era integrada na sua dinâmica normal.

Os processos naturais servem de parábola e de inspiração para a história humana. Nesta, a realidade toma as variadas feições dos fatos concretos. Mas a sua trajetória traz também as marcas da luta pela sobrevivência.

Num primeiro estágio, a vitória de uns parece implicar necessariamente na derrota de outros. A própria narrativa da libertação de Israel implica a eufórica descrição da morte dos egípcios aos borbotões.

Foi preciso o testemunho de Cristo, constituído em nova e definitiva páscoa, para entendermos que o segredo da vida humana está em sua doação. Dando sua vida por amor, Cristo vence a morte, com a vitória de sua ressurreição.

Esta simbologia da fé não nos exime de enfrentar o desafio de perceber a gravidade da crise atual

Ela não se enquadra no ritmo normal dos ciclos da vida. E´ fora de série. Ela não se cura com uma páscoa. Ela aponta para desvios mais graves, cometidos pela civilização atual, que ameaçam a própria vida do planeta. A crise ecológica se constitui na advertência mais eloqüente, capaz ainda de sensibilizar as consciências.

Quando avisaram Jesus que seu amigo Lázaro estava enfermo, não foi logo visitá-lo. Esperou que morresse, para depois ressuscitá-lo. “Esta doença é para que se manifestem os desígnios de Deus”.

Agora também. Não adianta ter pressa diante desta crise, que pede muito mais do que mudanças superficiais. Primeiro é preciso deixar morrer muitas ilusões, produzidas por um modelo de civilização marcado pela depredação da natureza, pelo acúmulo e desperdício, e pela desigualdade produtora de miséria e de violência.
Esta crise precisa nos ensinar os caminhos do respeito pela natureza, da justiça na organização social, e da fraternidade nos relacionamentos humanos.

Desta vez, a páscoa nos remete à sexta-feira santa. Antes de terminar a crise, há muitos equívocos que ainda precisam ser exorcizados.


(*) (www.diocesedejales.org.br)







TEXTO DE DJANIRA SILVA
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



Vejo a vida espelhada nos olhos, nos sorrisos. Espelhos que se espalham nas faces, nos rostos amargurados. Sou misericordiosa com o que vejo. Procuro preservar a inocência dos primeiros pecados. Esta é a forma que encontro de me ver perfeita ou quase nua ou nua, crua, sem arrependimento. Machuca-me a aceitação. Acreditar no que me estraga, dissolve e reduz. Sinto prazer na revolta que renova e sacode o torpor do pensamento constrangido.

Retardam-se os sentidos, diluem-se imagens na crueldade do tempo, do silêncio que já existia antes de Deus. Nem precisei dizer faça-se o som, ele estava em todas as coisas, nas primeiras palavras da desobediência, no balbucio do mentiroso, nos rosnados da covardia, do medo, da luxúria.


Obs: Texto extraído do livro da autora Memórias do Vento.







CAÇADOR DE MIM
Vilmar Locatelli
( vlocatelli@hotmail.com)


O que queres de mim?
Estou aqui:
no encontro que se divaga na espera
na coragem que se esvai na ausência
Caminho novo que se procura
Presença de uma paz
que se faz loucura
Na consciência da pequenez;
o nada que podemos ser,
se torna certeza
que haverá liberdade
no tempo do crer, amor-doação.
É quando o irmão vai viver.

Não é nada de incompreensível.
Existe sangue que corre nas veias
Um coração que bate no peito
Uma realidade parecida com a sua
Um mundo com sol e lua.

E o mais incrível:
é gente que busca espaço
vidas e fracassos embriagados
Alguém afugentando o medo do escuro
buscando segurança
onde só a esperança
faz crer que o amor é seguro.







A PÁSCOA DO JUSTO
Marcelo Barros*
(irmarcelobarros@uol.com.br)



A tradição judaica acredita que, enquanto existir no mundo dez pessoas justas, o universo está salvo. E dom Hélder Câmara comentava a passagem bíblica dos famosos dez justos de Abraão (Gen. 18), dizendo que, se o patriarca tivesse insistido com Deus, Ele teria aceitado poupar as cidades dos malfeitores, por apenas um justo que aí vivesse. Certamente, não é o nosso caso. Nem porque não merecemos a condenação divina que o povo diz ter caído sobre as cidades do vale do Mar Morto, como porque, graças a Deus, temos não apenas uma, mas muitas pessoas no mundo que podem ser referências e testemunhas de justiça.

De qualquer modo, nestes dias, ficamos mais pobres, porque mais um justo se foi. No mosteiro da Anunciação do Senhor, na Cidade de Goiás, faleceu o irmão Pedro Recroix que todos chamavam de “Pedrão” .

Ele veio da França para o Brasil em 1960. Foi monge e lavrador em Curitiba até vir para Goiás em 1977. Veio com mais dois companheiros para conviver com o povo mais pobre do Centro-Oeste e apoiar os movimentos de pastoral popular com uma espiritualidade consistente.

Durante quase sete anos, viveu como eremita. No início, em Goiás e depois como pároco em Itapirapuan. Em 1984, decidimos refazer um pequeno mosteiro para ser ponto de referência espiritual e humano para o povo da periferia e do campo. Desde então, ele viveu sua vocação, repartindo o tempo entre a comunidade e sua profunda vocação de oração pessoal e íntima. Ao mesmo tempo, aprimorou o talento artístico que já vinha de Curitiba. Fez exposições internacionais com suas talhas de madeira, extremamente criativas, hoje espalhadas pelo mundo inteiro. O tema mais recorrente de seus trabalhos é a renovação da natureza, assunto que, cada vez mais, interessa a todos nós. Entretanto, ele foi acima de tudo um monge, procurador de Deus, “peregrino do Absoluto”.

Filho de oficial do exército francês, desde muito jovem, sua personalidade forte e seu caráter de atleta o tornou um excelente nadador e um pescador renomado. Nos anos 80, se exercitou nos rios e riachos de Goiás. Mais tarde, esta força interior foi direcionada, principalmente, para uma forte disciplina comunitária e uma fidelidade a toda prova aos irmãos com os quais convivia. Dificilmente, se encontrará alguém tão estável e tão capaz de ser sempre o mesmo. Ele conseguiu isso pelo segredo da oração silenciosa e repetida do nome de Jesus e pela valorização de um método de perseverança, pelo qual o cada dia é como se fosse um dia novo e original.

No mundo todo e também entre nós, muitas pessoas, das mais diversas tradições espirituais e de idades diferentes são testemunhas do amor divino. Ajudam as pessoas a se colocarem diante das perguntas e desafios mais profundos e íntimos da vida. O mundo desorientado e sem rumos em que vivemos precisa muito desta referência espiritual. Neste sentido, com a partida do Pedro, ficamos todos mais carentes. No céu, ele continua praticando conosco seu humor afiado. Certamente, está nos provocando a manter viva dentro de nós a chama que ele representou em madeira na capela do Mosteiro: uma representação do mistério divino e, ao mesmo tempo, do fogo do amor e da busca permanente da plenitude que todos nós temos de reacender na terra.



(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
www.empaz.org/







BEM ME QUER... MAL ME QUER...
CauReb
(caureb@gmail.com)



Ela não espera ser feliz...
Pois não acredita na felicidade.
Ela não espera ser feliz...
...não confia em pessoas felizes...

Bem-me-quer...
Mal-me-quer...
Escolhas erradas mastigam cada pedaço de esperança...
Segurança não combina com liberdade...

O que são pétalas caídas num imenso jardim?
Quem lá irá notar a única flor destruída?
A única flor que foi esquecida,
A única que morreu, e ninguém percebeu.

Bem-me-quer...
Mal-me-quer...

A única flor que morreu, e ninguém percebeu..............

13.03.2009

Obs: Imagem enviada pela autora.







TEXTO DO IRMÃO RONALDO D. HEIN CSC (*) – PARTE I



Em qualquer Sessão como esta, analisando a realidade da violência do nosso Município, buscando as causas para poder atacar o problema pela raiz, sempre chegamos à conclusão de que a situação está muita ruim.

É a mesma conclusão que nós, os educadores da Pastoral do Menor (PAMENP, chegamos ao longo destes anos desde que iniciemos o trabalho em 1982 com meninos e meninas em situação de rua. A causa principal da situação de violência é a mesma: o desrespeito pelo ser humano. A pessoa humana não é prioridade, mas, sim, a busca do dinheiro, o poder e o prazer para quem pode. Enquanto a pessoa percebe que ela não é prioridade dos planos humanos, principalmente nas áreas de saúde, educação e recursos para uma vida digna, ela fica revoltada, e, muitas vezes, vai em busca da sobrevivência de qualquer jeito. Os nossos presídios estão cheios de pobres que partiram para usar a violência para poder sobreviver.

No início do nosso trabalho com crianças e adolescentes acostumados com a agressão verbal e física, descobrimos que eles não queriam manter este ritmo de violência, que, muitas vezes, envolvia cheirar cola, e, mais tarde, drogas mais fortes.

No primeiro contato em 1982, eles ficaram muito alegres em ver que a Igreja, que eu representava, estava interessada na situação deles. Eles pediram para continuar com estes contatos e assim começou a entidade que hoje é conhecida como PAMEN.

Reuníamos com eles cada semana e eles sentiram a nossa presença solidária como um gesto de amor por eles. Descobrimos que eles estavam cansados de uma vida desorganizada e precária e aceitaram normas que colocavam limites nas suas vidas; como, por exemplo, dormir em casa, freqüentar a escola e respeitar as pessoas na rua onde estão trabalhando. Outras normas que os ajudaram foram: manter-se em silêncio quando o outro está falando; não usar palavrão; conversar sim, brigar não; não roubar o freguês do outro; respeitar a tabela de preços para engraxar. Eram pequenos gestos para promover uma mudança de uma cultura da violência para uma cultura da paz.

Procuramos, desde o início, promover uma cultura da paz. Lembramos nas reuniões com eles que são criados à imagem e semelhança de Deus; que tem uma inteligência e livre vontade para serem usadas para o próprio bem e para o bem comum. Assim foram descobrindo seu valor e papel como cidadãos; assim crescia o auto-estima. Lembramos que são irmãos e irmãs uns dos outros, filhos e filhas do mesmo Pai -Criador. Que todos tem direitos e deveres – o direito de ter uma vida digna, e o dever de respeitar o outro na sua dignidade humana.

A metodologia que usamos na PAMEN é proporcionar para os meninos e às meninas em situação de risco, uma experiência de vida onde é promovido o bom relacionamento: consigo mesmo, com o outro, com Deus e com a criação. Com esta nova experiência eles podiam comparar com outras experiências de vida para avaliar para si próprio o que dava um melhor resultado na sua vida. A cultura da violência ou a cultura da paz.




(*) Depoimento dado por Irmão Ronaldo D. Hein, coordenador da Pastoral do Menor da Diocese de Santarém, durante a sessão na Câmara Municipal, no dia 10 de março, quando discutia o Tema e Lema da Campanha da Fraternidade: Fraternidade e Segurança Pública e, A Paz é Fruto da Justiça. Dez entidades foram convidadas para dar seu parecer sobre este assunto.

Obs: A PARTE II será postada na próxima atualização







SAUDOSISMO
Walter Cabral de Moura
(wacmoura@nlink.com.br)



Voltar o tempo atrás
e de novo andar
sozinho pelas ruas de Olinda:
no coração toda a esperança,
nos olhos toda a poesia.

Voltar o tempo atrás
e de novo entender
numa estrela que pisca
o convite irrecusável
de embarcar pro espaço:
baby, me leva com você!

Voltar o tempo atrás
e de novo tecer
poemas pra ofertar
à mais bonita do dia
ou apenas escutar
um som de flauta de algum lugar.

Voltar o tempo atrás
ou então, voar
e de longe, ver
a Terra, vestida de azul
girando, pousada entre nuvens.







A ESTABANADA
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com



A primeira vez que te vi eu estava comendo pipoca na Orla.

Você sentou em um dos banquinhos para apreciar o rio enquanto eu te admirava.

Você sorriu e eu engasguei com a pipoca.

Enquanto tentava manter o sorriso senti o ar faltar nos pulmões.

Você continuou me olhando e talvez percebeu que em vez de ficar vermelha eu estava ficando roxa.

Dei aquela tossida e a pipoca foi parar nos seus pés.

Baixei a cabeça e fui embora.

A segunda vez que te encontrei você estava de carro parado em frente a uma Agência Bancária.

Fiquei te contemplando do outro lado da rua.

Ao atravessar a avenida fui atropelada por um ciclista.

Resultado acabei indo ao chão.

Você já ia descer do carro para me socorrer, mas num salto me levantei e ignorei a dor no joelho.

Constrangedor foi ter que esconder o buraco na minha saia.

Enquanto me arrastava mancado para a calçada tentava cobrir com uma das mãos o rasgado no lado esquerdo do bumbum.

Procurei uma vala bem funda para me enterrar, no entanto não encontrei nenhuma.

A terceira vez que esbarrei com você eu estava no alto de uma escada.

Você tinha acabado de entrar no salão de festa e eu analisava os convidados de uma posição privilegiada.

Você sorriu e eu retribui.

Ia descer ao seu encontro, mas ao caminhar para a escada o salto da sandália engatou no vestido longo e rolei 20 degraus abaixo.

Desmaiei e não vi sua reação.

A última vez que vi você, eu estava numa cama de hospital, uma perna quebrada, uma costela fraturada, um olho inchado e um braço enfaixado. Você entrou no quarto com uma prancheta na mão e eu pensei que os anestésicos estavam fazendo efeito.

Você tocou no meu rosto, verificou meu pulso e descobri que você se chamava Ricardo e era médico.







BUSCA DE DIREITOS
Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)



Quando as autoridades se tornam lentas, quando os concessionários pensam antes nos lucros do que no serviço público, quando a democracia representativa não funciona bem e a população desperta para a violência que sofre em seus direitos e percebe que tem poder de agir, então a democracia direta pode funcionar.

Nos últimos tempos é o que começa a acontecer. A elite burguesa se assusta com isso e também começa a demonizar os movimentos sociais, como acontece hoje no Rio Grande do Sul e como, mesmo aqui em Santarém, certa imprensa preconceituosa repercute, acusando os movimentos sociais ativos de vândalos, criminosos e outros adjetivos.

A elite econômica política prefere que os pobres continuem conformados, recebendo esmolas do Estado e das grandes empresas que sugam as riquezas da região e “doam” pequenos presentes à coletividade.

Já o movimento social que desperta para a busca de seus direitos e vê-se ludibriado por quem deve respeitá-los, começa a compreender que não basta indignar-se com as injustiças, nem tampouco basta resistir aos desmandos, é preciso enfrentar os que lhes tiram os direitos de uma vida digna.

Em Santarém estes sinais de vida têm se manifestado com alguma freqüência recentemente. Umas semanas atrás foi o comitê em defesa do igarapé Urumari (ainda o comitê aguarda a lei de proteção aos igarapés da cidade, cujo projeto está encalhado na Câmara de Vereadores e que, se não for agilizado certamente haverá novo enfrentamento lá no plenário da Câmara); uma semana atrás foi a vez das vítimas da sucateada Cosanpa, no bairro Nova República. Foram às ruas com latas vazias gritando por água potável, seguida de uma audiência pública. O enfrentamento irá nos próximos dias a Belém, onde está a governadora com 35 milhões de reais do PAC para resolver o problema de água em Santarém e que até agora só tem havido enganação.

E neste dias, são os moradores do bairro Santarenzinho, tolidos em seu direito ao transporte coletivo. A empresa simplesmente recusa transitar em certas ruas porque estão em condições ruins. 21 anos atrás, o povo organizado daquele bairro expulsou uma empresa de ônibus, que prejudicava os usuários. Naquele tempo a associação de moradores tinha organização e tinha a força da união dos moradores. A empresa que hoje se recusa a servir aos moradores do bairro foi a que chegou para substituir a outra. Foi recebida com alegria e de fato, melhorou 100% o serviço de transporte coletivo naquela área. Chegou até a negociar o asfaltamento das ruas da linha. Hoje, tudo indica que ela não pensa mais em servir, mas em ganhar e ganhar lucros, por isso deixa de trafegar onde as ruas estão ruins. Os usuários estão indignados, querem resistir ao esbulho, fazendo abaixo assinado e procurando a prefeitura. Querem e têm direito.

Mas, se a prefeitura não der jeito? E se a empresa não voltar a circular por onde deveria? Será que a associação de moradores ainda terá aquela força que teve em 1988? Os moradores partirão para o enfrentamento? E se partirem, as elites econômico e política os acusarão de vândalos e criminosos?
Quando a democracia representativa não funciona quem deve ser responsabilizado de criminoso?

Hoje em dia, povo conformista e passivo não sai da servidão, nem merece melhoria de vida. A dignidade humana está acima de lucros e de poderes institucionalizados. Aliás, foi Jesus Cristo que disse uma verdade semelhante a Pilatos –“Pilatos o poder que tens não é teu, te foi dado do alto para servir...” E o próprio Jesus deu exemplo, se o poder é utilizado para enganar o povo é preciso enfrentá-lo, mesmo que para isso Jesus tenha tido que passar pela paixão e morte, que é o que os pobres dos bairros de periferia estão sofrendo, mas Ele venceu, ao ressuscitar ao terceiro dia. Quem luta pelo bem, mesmo que sofra vencerá.





A VITÓRIA SOBRE A MORTE
Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)



A tradição religiosa brasileira é majoritariamente católica, mesmo tendo a mesclagem das religiosidades, indígena e dos afro-descendentes. O catolicismo brasileiro é mais tradicional do que de conversão a um caminho novo de vida, proposto por Jesus Cristo.

Grande parte desse catolicismo brasileiro, inclusive de Santarém e do Pará é baseado nas tradições passa¬das de avós, pais e parentes e dos missionários estrangeiros nas desobrigas irregulares. Estes vinham rápido, faziam uma catequese mínima e sacramentalizavam as "almas fiéis".

Por conta dessa tradição, a fé do povo foi sendo mantida baseada mais na catequese do que na evangelização. Daí a insegurança que perdura ainda hoje em muitos (as) católicos, quando se refere aos fundamentos de sua fé, de sua Igreja e de seus rituais. Jesus Cristo, primeiro evangelizou o povo, anunciou a Boa Nova e só depois, fez uma catequese com seus discípulos, já mais ou menos convertidos ao projeto do mestre. No Brasil a trajetória não foi a mesma de Jesus, por várias razões, inclusive a doutrina do Concílio de Trento, ocorrido ao tempo do chamado descobrimento do Brasil.

Então, por causa da fé tradicional da maioria da população brasileira, a Semana Santa é vivida ainda hoje, mais como ritual de lembranças, até emocionais (especialmente quando focalizam a paixão e morte de Jesus, e quando e onde se faz a procissão do Senhor morto), do que de memória de um acontecimento que tem a ver com a realidade humana de hoje.

Jesus morreu de modo tão cruel, mas por que amou todos os seres humanos, especialmente os humilhados e injustiçados. Como ele mesmo afirmou - "Não há maior amor do que dar a vida pelo irmão". Ele poderia ter fugido do monte das oliveiras, escapado da morte. Até teve medo daquele sofrimento, mas não podia recuar, se seu testemunho de fidelidade ao Compromisso de revelar a vontade do Pai para a felicidade de todos os seres humanos exigia falar e agir coerentemente. Daí ele gritar, - Pai afasta de mim este cálice amargo ... mas não se faça o que quero ...

Quem passa a semana santa como ritual tradicional, faz lembrança do que ocorreu no ao passado. Aí reza, faz penitência, faz jejum, via sacra, acompanha a procissão do Senhor morto, se emociona com a narração ou filmagem da paixão de Cristo e pronto, tudo passa e a vida continua como dantes. Para esse tipo de católico a semana santa termina na sexta-feira; já no Sábado de aleluia, vai à praia, vai à festa dançante e outras distrações. Para estas pessoas Semana Santa é lembrança do passado. Para o católico que faz memória na semana santa, a expressão é outra.

Jesus Cristo é trazido em memória aos dias de hoje. Tanto identifica a paixão continuando hoje, nos que sofrem a desigualdade social, nos marginalizados, como percebe a ressurreição acontecendo nas pessoas e comunidades que conseguem já seguir o projeto de Jesus, expresso nas bem aventuranças.

Para este tipo de cristão, o ponto mais central da semana santa é o domingo da ressurreição, quando se faz memória da vitória sobre a morte. São Paulo é quem ilustra bem essa experiência de memória quando diz em uma de suas cartas - "Se Cristo não ressuscitou é inútil nosso esforço e nossa fé... "Mas Cristo ressuscitou, venceu a morte e garantiu a todos(as) seus e suas seguidoras(es) a vitória sobre essa realidade misteriosa da morte física que abate tantas pessoas e leva outras ao fatalismo.

A vida continuará, porque Cristo garantiu e deu o exemplo com sua própria ressurreição. Daí o ponto central da semana santa, o domingo da Ressurreição, celebrando com hinos e festas, sem ovos de páscoa e coelhinhos, símbolos do consumismo capitalista que tenta subverter o sentido sagrado do acontecimento da vida retomada por Cristo.

Os rituais de memória supõem um espelhar-se nos fatos passados, um olhar sobre Jesus que amou até a última gota de sangue e ao ressuscitar ao terceiro dia e supõe também um passo de revisão de vida e conversão. Sem mudança de algum aspecto da vida pessoal e comunitária, os cristão não celebram a semana santa como memória da vitória de Cristo. Eis o desafio para cada um e uma que diz crer em Jesus Cristo.







UM TEATRO PARA O MUNDO
Odete Melo de Souza. (*)



“Nada se constrói sem que alguém tenha sonhado com isso, alguém tenha acreditado que isso fosse possível e alguém tenha querido que isso acontecesse.”
Queremos fazer nossas estas palavras lidas no jornal de Portugal e aplicá-las ao gigantesco TEATRO DE NOVA JERUSALÉM.

Se não fosse o amor e o sonho de Epaminondas Mendonça pela arte teatral que começou com simples apresentações na vila de Fazenda Nova nas próprias ruas da mesma, nada de grandioso teria acontecido. Os participantes eram ele, seus familiares e moradores da localidade, encenando peças sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Depois, o gaúcho Plínio Pacheco veio morar naquelas quase desconhecidas plagas, casou-se com Diva, filha de Epaminondas e ampliou imensuravelmente aquele sonho, idealizando um cenário semelhante à verdadeira Jerusalém.

Seguiram-se grandiosas construções a exemplo dos palácios e outros prédios do tempo do Messias que serviriam de palco para as apresentações.

Suponhamos que o grande teatrólogo gaúcho tenha se inspirado no teatro Obermmergau na Alemanha, onde se encena a morte e a ressurreição do Cristo.

A publicidade do teatro foi se alargando pelas cidades e estados vizinhos, abrangendo todo o Brasil e parte do exterior. Enfim, hoje é o maior TEATRO AO AR LIVRE DO MUNDO.

A cada ano o espetáculo se aperfeiçoa e renova atraindo assim, um público sempre maior.

Com certeza, Plínio vivenciou a realidade de que “devemos fixar os nossos olhos na perfeição e fazer com que tudo se apresse nessa direção”.
A escolha dos personagens, indumentária, som, cenário e interpretação constituía uma verdade unanimemente (essa palavra está escrita assim no texto, é isso mesmo?) constatada.

De início, o espetáculo era vivenciado pelos expectadores com mais piedade e sentimento de religiosidade, conscientizados de que a Quaresma é um tempo propício à conversão, concretizado pela conhecida trilogia: ORAÇÃO – JEJUM – PARTILHA.

Atualmente, as milhares de pessoas que convergem ao local do espetáculo, consideram mais como um divertimento, além de outras atividades paralelas surgidas dentro e fora da grande muralha.

Entretanto, o valor artístico cresce cada vez mais e a admiração pelo TEATRO é proclamada e divulgada por todos que têm o privilégio de assistir àquela inigualável PELA TEATRAL.

Acreditamos também que no íntimo dos mais piedosos pulsa sentimentos de amor, gratidão e arrependimento. Os intérpretes, agraciados com o desempenho sentem-se mais próximos de Jesus, com certeza.

Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, o Brasil, o mundo, os intérpretes, os coordenadores e o Presidente Robinson Pacheco estão de PARABÉNS por tamanho empreendimento.

Ultimamente, o Governador do nosso Estado, Eduardo Campos, sancionou o projeto de lei de autoria do deputado Alberto Feitosa, transformando o Espetáculo da Paixão de Cristo e o Teatro de Nova Jerusalém em Patrimônio Cultural Imaterial e Material de Pernambuco.

Despretensiosamente, enriqueceríamos a honra, atribuindo ao TEATRO DE NOVA JERUSALÉM, o privilégio de ser incluído entre as SETE NOVAS MARAVILHOSAS DO MUNDO.


(*) Autora de Retalhos do Coração.







TEXTO DE PAULA BARROS
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)



São tantas portas que precisamos abrir
Algumas até fechar
Portas do mundo interno e externo
Sem abrirmos algumas portas principais do mundo interno
Trancamos as portas do mundo externo
Não conseguimos abrir
Ou mesmo abertas não conseguimos entrar ou sair
Às vezes as chaves estão conosco e o outro ajuda a girar
Às vezes temos as fechaduras e a chave o outro carrega
Existem portas abertas e que temos medo de entrar ou sair
Outras vezes a porta está fechada e tentamos passar
Abrindo, forçando, muitas vezes até derrubando
Às vezes pulamos por janelas para facilitar a entrada
Ou entramos por elas para poder sair
Assim seguimos na vida,
Com portas, janelas e chaves
Observo as tantas portas e janelas
Tento abrir algumas
Seguir pela vida



Obs: Imagem enviada pela autora (Curitiba - foto Paula Barros)







ENTRE ESTRELAS
Maria Inês Simões
www.mis.art.br
mis@mis.art.br



No espaço que compreende
à distância de dois corpos
existe uma estrela que brilha
sem saber a razão deste ser

No espaço que compreende
o azul de teus sonhos
existe um beijo vago
que flutua e rodeia teu viver

No espaço que compreende
o universo dos sentidos
existe um buraco negro
a ser preenchido no amanhecer

No espaço não compreendo
a razão das distâncias
o sentido de um beijo azul
nesta estrela de ter que esquecer








E O TEU ROSTO A PROCURAR...
Rômulo José
reidromacsc@hotmail.com

Trêmulos passos,
Fico pela casa a vagar.
Olhando para a lua,
E o teu rosto a procurar...


O ceú estrelado,
Ficando eu a lamentar.
Tantas são as estrelas
E o teu rosto não consigo encontrar...



Obs: Imagem enviada pelo autor.


Segunda-feira, Abril 06, 2009






O CELIBATO
Pe. Eduardo Delazeri
pe.eduardo.delazeri@gmail.com



O problema do celibato não está na impossibilidade de se cumprir essa disposição. Algumas pessoas, por sua própria natureza, por alguma forte decepção amorosa, por seu individualismo exacerbado, por medo do casamento, por motivos místicos, por seu entusiasmo incontido e permanente pelo Reino de Deus são capazes de abrir mão do casamento sem grandes dificuldades. E, no caso de conhecerem e darem importância às normas que regem a sexualidade humana, são capazes também de permanecer na castidade. Toda via, cessada a motivação, pela superação do problema ou por não haver mais razão para manter o celibato, a pessoa está livre para casar-se, se assim o desejar.

No caso do celibato clerical, a questão reside na obrigatoriedade do voto. Uma opção feita aos 24 ou 25 anos que se estendo por toda a vida, mesmo que no momento da opção não se pode ter toda a vida diante de si. Assim em alguns casos (não na maioria deles) o celibato continua, mas sem a castidade. Ora, a castidade não é muito mais importante que o celibato (Cf 1Co 7.8-9).

Ao mesmo tempo, não se pode exagerar a proteção do matrimônio, nem mesmo reduzi-lo a um remédio para a incontinência. Mesmo porque, a sexualidade humana pouco se parece com a figura de uma represa que precisa de descargas periódicas. O Matrimônio deve ser muito mais que a legitimação do exercício sexual. Ele implica em unidade, reciprocidade, fidelidade, doação numa palavra amor. Não seria de surpreender que muitos problemas referentes a continência celibatária, se façam presentes na vida conjugal.

O casamento, apesar de não ser uma pílula que resolve todos os problemas, é o caminho que nos ensina a própria natureza, onde se coadunam as tendências dos dois sexos nos aspectos mais fundamentais da pessoa humana, no instinto sexual da procriação e no amor. Mesmos a Bíblia desaprova a solidão e afirma necessidade da união conjugal (Cf Gn 2, 18; 2, 24).

Seria o celibato obrigatório um fardo desnecessário e perigoso? Ou mesmo: que sentido pode ter o celibato na cultura de hoje? Estas questões podem parecer impertinente; mas são fundamentais. Certamente, os homens de nosso tempo requerem uma explicação coerente à atualizada sobre este tema, pois o celibato é visto no mundo contemporâneo, mais do que em nenhuma época, como uma contradição ao ideal da realização humana.

Vivemos a pós-pós-modernidade, emerge uma nova concepção da pessoa humana. Superadas as visões secionadas de homem, procuramos ver a pessoa humana como uma tríplice unidade entre corpo, psique e espírito. Este novo homem procura o equilíbrio e não mais a valorização do espírito em detrimento do corpo. Cremos que cada pessoa deva viver a plenitude da sua contingência na complementaridade entre homem e mulher.

No entanto a Igreja Católica continua apontado-o como caminho "mais excelente". Muitos jovens, homens e mulheres, plenos de vida, continuam optando pelo celibato, mesmo contra toda razão e toda a "psicologia" da sociedade. Sem a menor dúvida, há nisto algo que nos desnorteia, a nós que vivemos numa época em que os jovens reivindicam a liberdade do amor.

O celibato é uma vocação e um ministério. Se toda a forma de vida humana tende a se maximizar, o celibato é particularmente a vocação da maximização escatológica, ministério da espera e da preparação da Parusia. Se o matrimônio representa o reino e profetiza a unidade do masculino e do feminino, o celibatário profetiza o Senhor que vem. O celibatário, que orienta toda a sua existência para o "OUTRO", testemunha que em seu interior já vive no horizonte parusíaco. A vocação celibatária não consiste numa incapacidade, mas na sede ardente de um amor incondicional sem preferências e sem exclusões.

Toda a liberdade precisa ser conquistada. Com o celibato não poderia ser diferente.







SEMANA SANTA E RELIGIÃO
D. Demétrio Valentini



Para a Semana Santa convergem os dois trunfos mais importantes da Igreja Católica em nosso país.

De um lado, a Campanha da Fraternidade, instrumento privilegiado de inserção da Igreja na sociedade, assumindo causas importantes e de comum interesse, como se comprovou mais uma vez neste ano com o tema da segurança pública.

Por outro lado, as celebrações litúrgicas da Semana Santa, que melhor recolhem os sentimentos religiosos e a expressão de fé do povo brasileiro, desde o Domingo de Ramos, passando pela paixão do Senhor, e chegando à festa da Páscoa.

Nesta convergência entre ação social e celebração religiosa, encontramos a justificativa maior para a Igreja Católica se sentir integrada na história e na tradição do povo brasileiro, com o lugar que lhe compete de direito, como instituição que tem sua identidade própria, a partir de sua missão religiosa, mas que tem também o seu lugar na sociedade, por sua consistência institucional e pela atuação social que dela decorre.

As campanhas anuais de fraternidade, que há décadas a Igreja vem promovendo, se tornaram símbolo da interação positiva que pode existir entre uma entidade de cunho religioso, como é a Igreja Católica, e a sociedade civil de nosso país. Ao cumprir sua função específica de expressar a fé, a Igreja se mostra solidária com as questões que permeiam a vida da sociedade. Ela também oferece sua valiosa contribuição, seja motivando seus membros a participarem com responsabilidade da cidadania, seja oferecendo para a própria sociedade sua competente atuação concreta em diversos campos de ação social, sobretudo em atividades de caráter beneficente, mas também apontando valores que são coincidentes com o interesse comum de toda a sociedade.

Ao mesmo tempo, a Igreja se habilita a ter esta presença de credibilidade na sociedade, em primeiro lugar pela maneira correta de expressar a religiosidade do povo, colocando-se a serviço dos sentimentos de fé, para que eles encontrem expressão adequada na sociedade, que assim se enriquece de tradições salutares e muito significativas. Basta conferir quanto são apreciadas pelo povo as celebrações religiosas da Semana Santa, com as quais a Igreja Católica tradicionalmente mais se identifica. Se fosse suprimir estas celebrações, que empobrecimento isto significaria para a sociedade brasileira, que conta com elas até para estabelecer a data do carnaval!

A credibilidade da Igreja Católica na sociedade brasileira tem sua maior justificativa na coerência ética com que a Igreja lida com os sentimentos religiosos. Ela sabe que estes sentimentos precisam ser bem assumidos e conduzidos com responsabilidade. E todos constatam como estes sentimentos são facilmente explorados, levando instituições religiosas a se enriquecerem de maneira desonesta, explorando o apelo forte da religiosidade do povo brasileiro, e ao mesmo tempo explorando sua ingenuidade, sua falta de discernimento, e também sua crença fácil em todos os que se apresentam com fachada eclesial, muitas vezes mascarada sutilmente com artifícios de seriedade, mas que escondem espertezas enganadoras.

Quando a religiosidade do povo é explorada de maneira desonesta, cabe ao Estado, por seus instrumentos legais, desmascarar as instituições que se revestem de funções religiosas, mas na verdade são meras empresas que vivem explorando a religiosidade popular, inclusive eximindo-se de obrigações fiscais. E´ tarefa delicada, que necessita de parâmetros legais para ser exercida com segurança.

Daí a importância do Estado dispor desses parâmetros legais, para agir com segurança jurídica e presteza eficaz. Neste sentido, é bem vindo o “Acordo” firmado recentemente pelo Governo Brasileiro e a Santa Fé, regulando a existência e a atuação da Igreja Católica no Brasil. Ele somente explicita o que o ordenamento jurídico brasileiro já reconhece. Nas próximas semanas ele será levado ao Congresso Nacional, para ser ratificado, como manda a Constituição Brasileira. Tornado público e reconhecido oficialmente, ele pode se tornar parâmetro válido para todas as instituições religiosas que aceitam o confronto transparente com a sociedade e o Estado Brasileiro.

O contexto da Campanha da Fraternidade e da Semana Santa pode servir de boa justificativa, para os Congressistas que talvez ainda não atinaram para a importância deste instrumento jurídico que eles são chamados a analisar e a ratificar.


(*) (www.diocesedejales.org.br)





TRÍDUO PASCAL
D. Demétrio Valentini


Na quinta-feira da Semana Santa inicia o Tríduo Pascal. Com ele, chegamos á culminância deste tempo sagrado, ao núcleo central de todo o mistério de Cristo. O Evangelho testemunha toda a sua intensidade: “tendo amados os seus, amou-os até o fim”. Estes dias testemunham até onde chegou o amor de Deus por nós, manifestado no mistério da paixão do Senhor, que o tríduo pascal desdobra nesta seqüência que expressa a mais antiga tradição da Igreja.

São três momentos, todos carregados de plenitude, celebrados com as características históricas dos fatos lembrados.

Na Quinta-feira à noite a Igreja celebra a Última Ceia, quando Cristo instituiu a Eucaristia. Nela, Jesus antecipou a entrega de sua vida, que ele coloca como nova refeição pascal. O “lava-pés” expressa o gesto de serviço, que o envolve por inteiro na entrega de sua vida.

A Sexta-feira Santa revive a realização histórica da morte de Cristo na cruz. Em sinal de respeito e de contemplação, a Igreja escuta o relato da paixão do Senhor, e se detém em oração diante da cruz, que é carregada em procissão, para reviver o caminho do calvário.

No sábado Santo, na vigília pascal, a Igreja realiza sua liturgia mais solene e mais completa de todo o ano. Em meio à noite escura, acende a nova luz que Cristo fez brilhar, simbolizada no fogo novo que acende o círio pascal. À sua luz, a comunidade escuta a palavra de Deus, renova os seus compromissos batismais, e se alegra com a presença do Ressuscitado, que de novo faz sentir sua presença no partir do pão eucarístico. Assim, a Igreja retoma a alegria e a certeza da presença do Senhor Ressuscitado. O Tríduo Pascal nos habilita a celebrar o mistério de Cristo ao longo do ano inteiro.






SEMANA SANTA
D. Demétrio Valentini


A quaresma nos conduz para a Semana Santa. A caminhada dos quarenta anos do deserto levou o povo às portas da Terra Prometida. Assim, em cada ano, os 40 dias da quaresma nos introduzem no âmago do mistério da redenção, que a Igreja celebra em sua intensidade maior ao longo dos sete dias desta semana, única e toda singular, que vai do domingo de Ramos ao dia da Páscoa.

Sabemos que a semana é a medida simbólica da totalidade do universo. Desde a sua primeira página, a bíblia apresenta o mundo, ritmado na seqüência de sete dias, expressando a perfeição do projeto divino e sua realização harmoniosa na natureza.

E’ daí que nasce a força simbólica da semana. Na linguagem bíblica, ela é a medida do universo, e a expressão dos desígnios originais de Deus.

Cristo veio retomar estes desígnios, e refazê-los com a nova medida da misericórdia divina, que assimila as conseqüências do pecado humano e reintegra a humanidade em seu mistério de amor.

A ação de Deus, na primeira criação, é colocada no contexto da semana. A “nova criação”, realizada por Cristo, também é colocada na seqüência de uma semana. A primeira semana, da criação do mundo, revela o poder de Deus, que faz tudo acontecer sob o comando de sua palavra.

A segunda semana, a Semana Santa, também revela o poder de Deus. Mas um poder diferente, que surpreende a humanidade. O poder da misericórdia, que assume a forma de fraqueza humana, manifestada pela humilhação do Cristo que aceita o sofrimento e a morte, frutos do pecado, para vencê-los com a força do amor.

A semana da criação revela a eficácia da Palavra criadora, que ordena e tudo acontece. A semana santa manifesta a fecundidade da obediência de Cristo, que aceita o cálice amargo, e por meio dele redime a humanidade e faz acontecer o “homem novo”, que manifesta todo o seu vigor na glória do Ressuscitado.





JERUSALÉM: EM TI AS NOSSAS FONTES TODAS
Maria Clara Lucchetti Bingemer,
teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.



Brejo da Madre de Deus é uma obscura cidade do agreste pernambucano. Clima seco e 35 mil habitantes. Casas azulejadas entre pedras e vegetação rasteira. No entanto, dentro de menos de duas semanas, o brejo que tem o nome da Mãe de Deus será mais uma vez o lugar para onde convergirá uma peregrinação de 200 mil pessoas. Ali acontecerá, na cidade cenográfica de Nova Jerusalém, a encenação dos três dias que uma parte considerável da humanidade considera o apogeu de sua história: a Paixão de Jesus Cristo.

Mais de 2000 anos se passaram, o mundo mudou vertiginosa e radicalmente. Porém, a atração exercida por esse obscuro Galileu permanece de forma impressionante e inegável. A pequena cidade pernambucana será, mais uma vez, cenário do início da trajetória de Jesus de Nazaré, em Jerusalém. Cidade santa para o judaísmo, centro da religião, ali estavam situados o templo, o Sinédrio e as instituições mais importantes da Palestina daquele tempo.

O povo de Israel vê em Jerusalém uma cidade eleita por Deus, o qual em seu monte Sião erige novo Sinai, onde uma nova Lei é dada e recebida. Lugar da manifestação definitiva da glória divina e meta da esperança escatológica, Jerusalém acolhia os israelitas peregrinos que iam oferecer sacrifícios em seu templo, olhando desejosos para os tempos messiânicos, quando todas as tribos e nações ali se reuniriam.

Por isso o salmista aclama Jerusalém como a noiva do Senhor, da qual se anuncia um glorioso destino: ser o lugar de nascimento de todos os homens, um por um, pois foi o próprio Altíssimo quem a fundou. E o povo exalta sua amada cidade em meio a cantos de júbilo e alegres danças: “Todas as minhas fontes se acham em ti.” .

A primeira comunidade cristã, nascida no seio do judaísmo, narra a vida de Jesus de Nazaré, o carpinteiro Galileu que fazia milagres, multiplicava pães, amava pobres e crianças, deixava-se tocar por mulheres e leprosos e comia com publicanos e pecadores, como uma subida até Jerusalém. Subida que se intensifica a partir do momento em que o próprio Jesus toma o caminho da cidade santa não como rei glorioso, mas como profeta e servidor destinado a sofrer e morrer pela salvação do povo.

A entrada de Jesus na cidade se faz de forma humilde e pobre. Pois, apesar da aclamação que o saúda, Aquele que vem caminha ao encontro da morte e não da glória. Sobre a cidade que seria o lugar de seu martírio, Jesus chora de frustrado desejo de reunir todos os seus filhos “como uma galinha abriga os pintinhos sob suas asas”. E o drama que ali acontecerá dentro de poucos dias vai confirmar a tradição de que “não convém que um profeta morra fora de Jerusalém.”

Como toda realidade humana, Jerusalém se revelará santa mas também pecadora. E sua destruição por volta do ano 70 é por muitos interpretada em coerência com as dores que deveriam presidir os tempos messiânicos. No entanto, outra interpretação aconteceu com igual força e foi acolhida por uma parte da humanidade. A Cidade Santa, a Nova Jerusalém, não será mais uma cidade edificada com pedras e tijolos, mas o corpo humano, no corpo de Jesus que sofreu sua Paixão fora de suas portas.

E por isso, até hoje, e sempre e para sempre, se pode continuar entoando o salmo e dizendo: “Em ti nossas fontes todas. Em ti todo homem nasceu.” Pois o que nasce sempre de novo em Jerusalém é a esperança da humanidade em que o amor é mais forte do que a morte e a convicção de que os conflitos acontecem mas não aniquilam a criação de Deus e sim a fazem nascer, renascer.

E por isso Jerusalém está presente em todo lugar. No Oriente Médio e também em Brejo da Mãe de Deus, onde uma vez mais, durante a Semana Santa, a multidão contemplará a Paixão do Galileu que amou até o fim e em quem a comunidade reconheceu o Filho de Deus. Seja qual for nossa fé, o sopro singular que vem de Jerusalém nos diz que por mais obscura e aterrorizante que pareça a realidade, há um lugar, não geográfico, mas Transcendente, onde estão todas as nossas fontes todas e onde todo homem nasce e re-nasce a cada dia.



Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros. (www.users.rdc.puc-rio.br/agape)







EM BUSCA DA VERDADE
Padre Beto
www.padrebeto.com.br



Quando os primeiros missionários cristãos chegaram à Inglaterra, tiveram que pedir permissão ao rei para desenvolver seu trabalho de evangelização. O rei reuniu seus conselheiros na sala do trono e, em torno de uma lareira, ficaram até tarde da noite discutindo sobre o assunto. Em um determinado momento, um pássaro noturno entrou pela janela e, por alguns minutos, ficou voando pela sala iluminada e depois saiu novamente para a escuridão. Um dos conselheiros então tomou a palavra: "Eu acredito que assim acontece também conosco! Nós viemos da escuridão e entramos na sala iluminada da vida. Aqui passamos por um certo tempo e depois voamos novamente para a escuridão. De onde viemos? Por que passamos por esta existência? Para onde vamos? Estas são as maiores perguntas que podemos fazer. Se um destes missionários puder dar uma boa resposta a uma destas perguntas, por que não estaríamos dispostos a ouvi-los? Para compreendermos a vida necessitamos da abertura corajosa diante das diversas possibilidades!"

Constantemente buscamos a verdade. Seja de forma inconsciente ou não sentimos a necessidade de ter um certo domínio sobre a realidade, ou seja, necessitamos ter uma verdade sobre os fatos, situações e sobre a nossa própria vida. Sem dúvida alguma, a verdade deve possuir uma relação direta com a realidade. Afinal, ela pretende ser a expressão humana da realidade vivida por todos nós. À medida que possuo uma verdade, tenho a "segurança" de conhecer (pelo menos por um determinado tempo) aspectos de minha vida. Nesta verdade, encontramos sempre a diferença entre dois níveis em constante interação: a afirmação e o fato. Possuir uma verdade significa afirmar algo sobre determinado fato. Esta afirmação é carregada de conteúdo, ou seja, através da verdade (afirmação) caracterizamos o fato, damos um determinado valor a ele. Por ser uma afirmação humana, a verdade está também ligada à comunicação. Assim, a verdade humana tenta dar conteúdo a um fato ou circunstância através de uma afirmação que se expressa em uma frase. Nenhuma verdade é aceita se não existe uma relação de coerência entre estas três dimensões: afirmação, frase e fato. Uma afirmação torna-se verdade quando uma frase pode exprimi-la, uma frase por sua vez torna-se verdadeira quando um fato ou uma circunstância pode atestá-la. Portanto, o exame da frase e da afirmação está na aproximação do fato. É justamente na circunstância que se comprova a veracidade de uma afirmação e de uma frase. Para se provar que tal afirmação é verdadeira é necessário encontrar uma correspondência entre o fato descrito, a circunstância expressa em uma frase e o fato ocorrido, a circunstância vivenciada.

Assim, o grande desafio em relação à verdade está na confrontação de sua afirmação com o fato. Este desafio exige que tenhamos a abertura necessária para analisar a realidade através de diversas perspectivas na procura de aprimorar nosso conhecimento sobre as situações. Viver é estar em um constante conhecimento da realidade, ou seja, em um constante questionamento sobre nossas verdades, comprovando se estas se encaixam realmente com os fatos vividos. Para isso é necessário a humildade de admitir que sempre estamos aprendendo. Como afirmou, certa vez, Eça de Queiroz, "para ensinar há uma formalidade a cumprir. Saber". Um inimigo do saber e, por conseqüência, da verdade, é o dogmatismo. A verdade sobre os fatos e sobre a vida deve estar sempre acompanhada de seu questionamento, de uma constante avaliação. A verdadeira sabedoria não consiste somente em atingir a verdade, mas principalmente em ter a consciência de que a verdade pode não corresponder exatamente com as circunstâncias. "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende" (João Guimarães Rosa). Atrás do dogmatismo, muitas vezes, está o medo de que a verdade seja outra. A afirmação dogmática sobre a realidade significa uma forma de fuga da mesma. Muitas vezes criamos uma verdade que nos agrada e não queremos conhecer ou reconhecer a discrepância que existe entre o que acreditamos e o fato, a circunstância que contesta ou até mesmo nega esta verdade. Nos fechamos à confrontação dos fatos com nossa afirmação porque no fundo sabemos que esta irá nos fazer sofrer. Porém, "conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la e amar a verdade não equivale a deleitar-se com ela" (Confúcio). De qualquer forma, a busca da verdade sobre os fatos e a vida constitui no verdadeiro viver humano. Justamente passamos pela existência para nos aproximarmos da verdade... ou não! "De cada vez sabemos mais... que não sabemos nada" (Eça de Queiroz).







TEXTO DE DJANIRA SILVA (*)
djaniras@globo.com
http://blogdjanirasilva.blogspot.com/



Desde que você se foi sofro de liberdade.
Agora, meu mundo é um campo minado, perigoso, onde as lembranças ressuscitam-me todas as manhãs, escritas nos ponteiros dos relógios, nas fotografias, no cheiro das roupas, nos segredos da cama.
As flores estão murchas no jardim e no jarro sobre a mesa.
Volto para a cama.
Fecho a janela e os olhos.
Lá fora, o perfume das rosas.


(*) Texto extraído do livro da autora: Memórias do Vento.







PÁSCOA, VOCAÇÃO DO UNIVERSO
Marcelo Barros (*)
(irmarcelobarros@uol.com.br)





Todos os povos fazem festas pela chegada da primavera. No hemisfério norte, em fins de março e no Sul em setembro. Muitas comunidades tradicionais, indígenas e africanas, celebram a Primavera com ritos para que as pessoas se renovem e mesmo readquiram a energia e o sabor da juventude. A festa da Páscoa nasceu em tempos imemoriais, em ritos de primavera e renovação da vida. O próprio termo “Páscoa” significa passagem e não parece indicar somente mudança de estação, mas passagem de uma vida acomodada e rotineira para uma vida renovada. É possível que, em seu início, esta passagem se referisse a uma dança sagrada, na qual se davam passos para o futuro e para a vida.
Conforme a tradição judaica, na Páscoa, não são somente as pessoas que são renovadas.

Conforme a tradição, o próprio povo de Israel se libertou da escravidão do Egito e “passou” para a liberdade. No judaísmo, o título da festa é “Pezah zeman herutenu” : “a estação da nossa libertação”. O cristianismo fala de “Semana Santa e Festa da Ressurreição”. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. A Páscoa judaica tornou-se a comemoração da noite em que o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Foi quando celebrava a Páscoa com sua comunidade que Jesus foi preso e assassinado. Morreu na cruz, suplício com o qual os romanos matavam os escravos rebeldes, na sexta feira, véspera da Páscoa, pelas três ou quatro da tarde, exatamente na hora em que as famílias de Israel sacrificavam o cordeiro pascal. Na madrugada do domingo que se seguia ao grande sábado da festa, Jesus deixou-se ver, vivo. A partir de então, ser discípulo(a) de Jesus é testemunhar ao mundo essa energia da ressurreição, atuante nele e por seu Espírito, em todas as pessoas que o aceitam.

A mais importante celebração cristã é a Vigília Pascal, na noite do sábado para o domingo. Para os antigos, uma comunidade cristã poderia não celebrar a ceia do Senhor, na 5a feira santa à noite e mesmo não reunir-se para a memória da paixão do Cristo na 6a feira santa. Entretanto, não deveria deixar de festejar a Páscoa da ressurreição no sábado à noite ou no domingo de madrugada, antes do sol nascer. É o mais antigo culto cristão, vivido desde os tempos das catacumbas, quando a comunidade se reunia nas madrugadas de domingo, para lembrar a Páscoa. Santo Agostinho chama essa festa: “A mãe de todas as vigílias da Igreja”.

Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente a situação social, política, ou econômica do mundo. Não eliminará doenças físicas ou dores do coração. A Páscoa é profecia, grito de liberdade e vitória para dar força a quem continua na luta. Hoje, o otimismo e o riso como métodos terapêuticos são cientificamente reconhecidos. O Senhor ressuscitado revela-se com o corpo ferido e chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito. Mas, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33).

No mundo, os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder; uma sociedade cruel e sem compaixão. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente. No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta mais asquerosa é chamada a uma mudança radical. Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação do ser humano para esse caminho pascal. A ressurreição é a energia de Deus para transformar o universo. Celebremos, então, esta festa e vivamos este caminho pascal no aprofundamento da solidariedade como forma de viver a fé e a intimidade com Deus.


(*) Monge beneditino, teólogo e escritor.
www.empaz.org/






SOBRE A CRISE – PARTE II
Dasilva


AS CARACTERÍSTICAS DA CRISE


A atual crise é profunda, prolongada, com características depressivas e recessivas. É uma crise econômica, ambiental, ideológica e política. Uma crise global - atinge todos os países do mundo. A fase neoliberal do capitalismo, enquanto projeto, se esgotou porque já não corresponde aos interesses atuais do capitalismo.

É uma crise ambiental porque revela a falência do modelo de desenvolvimento, de consumo. A base de consumo impulsionada pelo capital não tem mais respaldo nos recursos naturais disponíveis no planeta.

A crise coloca em evidencia o esgotamento de uma ordem econômica e política mundial. A atual crise é parte da “Crise Geral do Capitalismo”, enquanto sistema desprovido de futuro histórico que deverá ser superado pelos povos. Tudo isso permite afirmar que a atual crise encerra um período histórico e inaugura um novo momento com distintas tarefas políticas ideológicas e organizativas.

Na crise ocorre uma intensificação do conflito e altera-se a correlação de forças. Surgem possibilidades de janelas transformadoras. A crise estrutural é uma premissa material para o surgimento de situações inovadoras. Mas, a superação das contradições internas do capitalismo, sem a presença de forças novas de transformação que aproveite essa situação, a crise terá uma solução capitalista.

As saídas clássicas que as elites usam para enfrentar a crise são: a) Destruir a super-acumulação através de guerras de conquista; b) Recomposição da taxa de lucro com super-exploração dos trabalhadores; c) Diminuição absoluta e relativa do valor da força de trabalho; d) Uso do Estado para apropriar-se da reserva social: pela dispensa de impostos, pelo oferta de crédito facilitado através de bancos públicos, venda de empresas “podres” (estatizações temporárias).

A crise atual também acarreta o enfraquecimento da hegemonia econômica e política dos EUA, embora mantenha inalterada sua hegemonia militar. A crise acentua o desgaste que se produziu ao longo dos oito anos do Governo Bush porque os EUA trilham uma política unilateral. Se os interesses internacionais eram contrários aos seus, tomavam seu caminho, desprezaram as instituições internacionais – não liga para a ONU, invade o Iraque, não assina o Protocolo de Kyoto, não ouve seus aliados na Europa, na hora das decisões....

Moralmente o desgaste é maior, devido à mentira que foi a invasão do Iraque e o atoleiro em que se meteram com a invasão do Afeganistão. A base de Guantánamo e as revelações da prática sistemática de tortura também contribuem para esgarçar o Império do ponto de vista moral. Culturalmente, o modo de vida estadunidense não pode se generalizar mundialmente, pois é inviável e mesmo lá esse modo de vida está abalado.

A América Latina tende a jogar um papel importante nessa conjuntura internacional, já que protagonizou importantes ações de resistência ao neoliberalismo, elegendo governos populares que podem ser decisivos no fortalecimento de uma correlação de forças favorável á classe trabalhadora numa nova ordem econômica e política mundial.

O Brasil não está menos vulnerável a crise, pois, o elevado grau de dependência constitui um forte fator desestabilizador. Virão crescentes turbulências decorrentes de problemas cambiais. O superávit comercial deve diminuir rápido, o superávit em transações correntes já virou déficit e a relação entre importações e reservas internacionais deve aumentar no futuro próximo. Os impactos sociais serão intensos.

A descoberta de jazidas petrolíferas gigantescas na camada pré-sal altera o significado geopolítico do Brasil no sistema mundial e acentua a importância de País, no período histórico inaugurado pela crise. Como a elite brasileira não tem projeto de caráter nacional porque seu projeto é o da elite internacional, ela apenas desenvolverá medidas de aprofundamento de sua integração subordinada, intensificando seu processo de reversão neocolonial.







TEXTO DE PAULA BARROS
www.pensamentosefotos.blogspot.com
( mpaula26@hotmail.com)




Segue sem um roteiro pré-estabelecido, a emoção é quem guia. Um sentimento instiga, faz seguir um caminho beirando o acostamento do desconhecido. No caminhar de idas e vindas, o vento toca lembranças, os olhos nublam. Para não derramar o rio do passado e o mar de interrogações do ser em si, muda a rota dos olhos, suspira o pensamento, engole o nó dos nós, do ele que evaporou, do ela carregada de nuvens. E volta. A emoção palpitando nas mãos, os dedos azul pôr-do-sol. O ambiente não tem música, escuta o som descompassado do coração. Que canta, mesmo sem encontro (com ele), o encontro (com ela). Viaja no roteiro do outro, lendo as linhas e querendo se descobrir nas entrelinhas e no mergulho daquele personagem que viaja, por ele. A vida palpita, pulsa, mas como o personagem, ela também tem medos e receios de se repetir. De não se ver no olhar, do próprio olhar, do olhar do outro. De repetir os mesmo caminhos, a mesma paisagem. Por isso segue, o próprio caminho, pelo caminho das palavras dele. Em busca dela. E não consegue deixar de ir.......


Obs: Imagem enviada pela autora







A LÁGRIMA
Dannie Oliveira
www.dannieoliveira.blogspot.com
poeiraepalavras@gmail.com



Tem dias que não dá pra esconder a tristeza.
Ela vem forte e brota de algum canto entre as artérias e o sangue.
Ás vezes machuca, inflige uma dor que parece um corte profundo que não quer curar.
O céu perde seu azul e vira cinza.
O colorido descolore.
O sorriso se desfaz.
A lágrima rola pelos olhos.
As pernas se curvam e tentam aquecer o corpo, um caracol.
Anjo caído do paraíso.
Pássaro sem asas.
A tristeza não é eterna, o medo nos torna fracos e faz desistir antes mesmo de tentar.
Assim como a dor brota no fundo e entorpece os sentidos lá também surge a esperança que alimenta um sorriso





DISCURSO DO DESEMBARGADOR VLADIMIR SOUZA CARVALHO (*)
vladimirsc@trf5.jus.br


No início era o verde, verde que defluia das matas, dos arbustos e da vegetação rasteira, verde que parecia nascer na Serra e dela descia, subindo por outras serras, a se espraiar por todo o território, até onde a vista alcançasse e não pudesse alcançar. Era o verde que só deixava de ser verde quando a terra se abria para permitir que um rio corresse por suas entranhas e os riachos, ainda que temporários, muitos, tornassem mais alentadores os sonhos de colonização. No meio de tudo, como senhora e rainha, imponente e estática, a Serra, a grande Serra, a maior de todas, testemunha muda da conquista que a região ia ser alvo, Serra que só se vestia, como ainda se veste, do azul pálido, quando vista de longe.

Neste verde, que a formatação histórica reservou para o ser o centro da futura Província de Sergipe Del Rei, seria erguida, por obra e graça do Reino Português, fruto da política de interiorização, a Vila de Itabaiana. Foi a primeira de todas, pioneira, umbilicada a de Lagarto, mas instalada antes desta, no sítio que a Irmandade das Almas do Fogo do Purgatório, criada na era de 1665, adquirira para ser a sede da Igreja.

A primeira vila sergipana vai se arrastar pequena e miúda, abafada e cercada da portentosa mata que seria, depois, denominada de Matas de Itabaiana, a não oferecer nenhum atrativo para o proprietário rural, que habitava os seus arredores, de forma a conviver com o atraso por mais de dois séculos, em um isolamento que, se de um lado, no início do século XIX, tornava a sua pequena população urbana a mais pobre de toda a Província sergipana, por outro, legavalhe a auto-suficiência.

É de Francisco Antonio de Carvalho Lima Júnior, primeiro historiador da terra, Carvalho como Sebrão, sobrinho, seu segundo historiador e meu tio-avô, Carvalho como eu sou, que, sem o fôlego destes, também dou meus mergulhos na história de Itabaiana, a afirmação, na memorável e fundamental MONOGRAFIA HISTÓRICA DO MUNICÍPIO DE ITABAIANA, que tudo já possuía o itabaianista de um século passado a mais, de modo a poder viver independente do mundo se dele estivesse separado por uma muralha inexpugnável.

A Vila de Itabaiana sai primeiro na cronologia dos tempos, mas se esbarra em dificuldades de todas as ordens, perdendo espaço para outros centros urbanos que lhe tomam a frente, a tal ponto que, uma vez elevada à categoria de cidade, só contava com sete ruas, uma praça e duas em formação, vinte e um sobrados, e casas de taipa e telha.

O problema, Senhor Presidente, é que Itabaiana, já agora adornada pelos mantos de cidade, continuava a dormir, como nos tempos de vila, não por ato de letargia, porque o povo desta terra sempre foi, e continua sendo, guerreiro e trabalhador, mas por uma questão de estratégia, aguardando o melhor momento para despertar o gigante adormecido, que só se liberta do sono nos meados do século XX, quando, enfim, Itabaiana impõe a posição de liderança econômica, via de um imenso e produtivo comércio, que, antes, se dispersou nos caçuás dos cavalos, a desbravar o Nordeste, desde o sertão baiano ao litoral cearense, descendo até o Rio Tietê, na Província de São Paulo.

O gigante se acorda e sai para a luta, fazendo com que o vento do isolamento no meio da Província, que secularmente lhe fora desfavorável, agora se torne um dos fortes aliados. Itabaiana estende-se no centro, com estradas para diversos municípios vizinhos e não vizinhos, significando, também, entradas e saídas, favorecendo, de forma incontestável, a sua escolha para ser sede de uma vara da Justiça Federal.

A Vara da Justiça Federal em Itabaiana vai ser colocada no papel de projeto, já neste século XXI, na presidência do eminente desembargador José Maria Lucena de Oliveira, transformando-se em lei, instalada, primeira do que todas, dentro da 5a. Região, na presidência da desembargadora Margarida Cantarelli, recifense de escol, que, por uma dessas coincidências da vida, traz nas veias um pouco de sangue sergipano, especificamente de Capela, de onde se deslocou o seu trisavô Antonio Diniz Barreto, professor, para a Vila de Itabaiana, onde nasceria José Diniz Barreto, seu bisavô, que, estudando em Recife, se forma em Direito e se torna professor da Faculdade de Direito de Recife, cortando seus vínculos, em definitivo, com a terra natal. Ou seja, seria uma bisneta de um itabaianense a honra de presidir a instalação da 6a. Vara, que, por seu turno, teria em mim o seu primeiro magistrado, na realização das primeiras audiências, na confecção de seus primeiros despachos e sentenças. A 6a. Vara nascia, assim, bem bafejada pelo sangue itabaianense.

A inauguração, hoje, desta sede, sede da 6a. Vara da Justiça Federal da Seção Judiciária de Sergipe, em meio a esta área, antes rural, agora urbana, sem perder, ainda, a tonalidade da agricultura que a cerca em algum ponto, é a mais vibrante prova de dinamismo que Itabaiana assiste e presencia, pela coragem da Justiça Federal sergipana de trazer para este local o seu Fórum, na certeza, desde o início e agora concretizada, de ser o Fórum um veículo também de atração para o centro urbano, que, com ele, com o Fórum, cresce e se estica, de maneira que dois coelhos são mortos com uma só paulada, ou seja, a Justiça Federal inaugura sua moderna e definitiva sede nesta cidade, ao tempo em que se veste de atração para puxar o centro urbano até os seus pés e ao seu redor. O terreno, antes encravado, ganha acesso próprio, materializado na avenida aberta.

A Justiça Federal ganha um Fórum condigno com o seu papel e importância, os servidores se distribuem em espaço maior, o jurisdicionado se vê dentro de um prédio traçado para ser um Fórum, e a cidade de Itabaiana cresce, em uma nova vitória do gigante acordado. Itabaianense, de berço e de espírito, pesquisador e divulgador de sua história e de aspectos de seu folclore, inspirando-me em muitos fatos que presenciei e tive notícia para bolar aqui e ali algum conto ou artigo, alio - ao título de alguns dos meus livros, SANTAS ALMAS DE ITABAIANA GRANDE, O CAXANGÁ NA HISTÓRIA DE ITABAIANA, A REPÚBLICA VELHA EM ITABAIANA, APELIDOS EM ITABAIANA, ADIVINHAS SERGIPANAS, vôos em seu passado e retrato dos costumes da sua gente, - alio a minha condição de magistrado federal, para, em um casamento perfeito, viver a realidade deste Fórum, um Fórum da Justiça Federal, da qual sou servidor esforçado e abnegado deste os idos de agosto de 1970 até os dias de hoje, com um hiato apenas de seis anos no toga de juiz de direito, Forum plantado em Itabaiana, da qual me coloco como arquivista de seu passado, arranchando-me no meio da Justiça Federal e de Itabaiana, como elo e marco, de maneira a, modestamente, fazer, com meu nome, da dupla nascer um trio, ao ver este mesmo nome, bolado por meu pai há tantos e tantos janeiros passados, crismando este Fórum, ainda que temporariamente, se for o caso, para a minha maior alegria.

Vejo, Senhor Presidente, esta homenagem, que nasceu do juiz Carlos Rebelo Júnior, ao despertar a sociedade civil de Itabaiana para tal empreitada, como um ato de justiça a minha geração, geração aqui nascida e criada, geração de bravos estudantes que não ficaram nos bancos da praça, nem nas conversas de esquinas, mas, arregaçaram as mangas e foram à luta, buscar seu próprio espaço, procurando ver e vencer, geração da qual fazem parte Abrahão Crispim de Souza, Adelmo Pelágio de Andrade, Adson Araújo Mendonça, Alberto Nogueira Silva, Antonio Bertrand de Góis, Antonio Carlos Fontes, Antonio Francisco de Jesus, Antonio Francisco de Meneses, Antonio José de Góis, Antonio José de Souza, Antonio Melo Araújo, Antonio Menezes Santos, Antonio Noan de Menezes Silva, Antonio Samarone Santana, Arlindo Alves dos Santos, Arnaldo Bispo de Lima, Átalo Crispim de Souza, Eduardo Tavares Silveira, Evilásio Andrade, Francisco Máximo de Jesus, Gentil Teles de Andrade, Gilberto Fonseca de Jesus, Guilhermino Pinheiro Noronha, Ivan José de Góis, João Bosco Souza Carvalho, João Santana Menezes, Jorge Roberto Mesquita Silveira, José Agnaldo Santana, José Airton Peixoto, José Aloísio Siqueira, José Antonio do Nascimento, José Arnaldo Alves dos Santos, José Arnaldo Machado, José Arnaldo Nascimento, José Arnaldo Silva de Jesus, José Augusto Alves dos Santos, José Augusto Andrade, José Augusto Machado, José Augusto Nascimento, José Augusto Siqueira, José Benjamin de Oliveira, José Carlos Machado, José Carlos Menezes, José Costa Almeida, José Edson Pereira Lima, José Elio Lima, José Geraldo Pereira Lima, José Geraldo Santana, José Lima Filho, José Luciano Góis de Oliveira, José Luiz de Oliveira, José Luiz Machado, José Marcondes de Jesus, José Mesquita da Silveira Neto, José Nilson Machado, José Raimundo de Araújo, José Rivaldo Lima, José Rivadálvio Lima, José Roberto de Góis, José Ronaldo Lima, José Siqueira Neto, José Valde dos Anjos, José Wilson Carvalho Passos, José Wilson Machado, Josemir Andrade de Oliveira, Josias Máximo de Jesus, Luciano Alves dos Santos, Luciano Oliveira, Luiz Alberto Siqueira, Luiz Antonio de Araújo Mendonça, Luiz Antonio Oliveira Machado, Luiz Carlos Andrade, Paulo Augusto Menezes Santos, Ricardo Silveira de Oliveira, Roberto Fonseca de Jesus, Serapião Antonio de Góis Filho e Valter Pinheiro Noronha, entre outros, e também aqueles já envoltos no sudário da saudade, como Agdo Oliveira Santos, Antonio Messias de Jesus, João Bosco Siqueira, José Benedito Góis de Oliveira, José Fernando de Araújo Mendonça, José Luciano de Siqueira, José Luiz da Conceição, José Milton Machado, Josias da Silva Nunes e Tarcisio Menezes dos Santos.

É como membro desta geração, dos anos quarenta e cinqüenta do século passado, que recebo a homenagem que a Justiça Federal sergipana me presta.

Em nome deste rol imenso de amigos me rendo e me inclino, em agradecimento, pela honra de poder ver meu nome à frente deste Fórum, na certeza de que, caso a homenagem persista, mais tarde, muito mais tarde, quando não passar de um nome a mais entre as sepulturas do Cemitério das Almas de Itabaiana, alguém, ao vê-lo aqui grafado, perguntando quem fui eu para merecer tal homenagem, espero que respondam, não que fui um magistrado que sempre procurou ser diligente nas decisões que tinha a tomar, mas que foi, antes e acima de tudo, um itabaianense que amou Itabaiana.

Muito obrigado.



(*) na ocasião da
inauguração da nova sede da subseção de Itabaiana.(Sergipe)







A GLÓRIA DA CRUZ
Dom Edvaldo G. Amaral SDB (*)
dedvaldo@salesianosrec.org.br


Escrevo hoje estas linhas para os cristãos de todas as confissões da Palavra de Deus.

Não é a sexta-feira santa o dia maior desta santa semana. Estamos celebrando a Páscoa do Senhor, isto é, a glória de Jesus que, pela sanguinolenta agonia, pela dolorosa flagelação, pelos escárnios da coroação de espinhos, pelos horrores do caminho para o Calvário e pelas zombarias da cruel crucifixão, chegou à glória da Ressurreição! É a Páscoa de Jesus, é a nossa Páscoa com ele, a vida nova em Cristo.

“Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” - disse Ele (Jo 12, 33). São Paulo explica-nos: “Cristo me enviou para anunciar o evangelho sem recorrer à sabedoria da linguagem a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo.Com efeito, a linguagem da Cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam , para nós, é poder de Deus.” “Os judeus pedem sinais e os gregos andam à busca de sabedoria, nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,17 e 18; 22-24).

São Leão Magno, Papa, comenta: “ A glória da cruz se irradia pelo céu e pela terra” - “Ó admirável poder da cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela se encontra o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado!” (Sermão 8º da Paixão do Senhor).

Na noite da vigília santa de Páscoa, com a liturgia, renovamos nossos compromissos batismais. Foi no Batismo, que fomos sepultados com o Cristo na sua morte e com Ele, ressuscitamos para a vida nova da graça.

Agora, é preciso vivermos cada dia esta vida nova do Batismo, em nossos compromissos de cristãos, em nossa comunidade eclesial, no trabalho, na família, na sociedade. Isso, o faremos com a ajuda Daquela, que aos pés da cruz redentora de Cristo nos recebeu como filhos. “Eis aí teu filho” – disse a ela Jesus agonizante. E agora, com Maria, nossa Mãe, seguindo-a na caminhada da fé, viveremos como ressuscitados, isto é, como homens novos em Cristo, o Senhor!

O mundo precisa de nosso testemunho cristão, corajoso, oportuno e convincente. Não podemos ser uma Igreja do “talvez”, do “mais ou menos”, do “vejamos se é possível”, mas sim a Igreja de Jesus, isto é, a Igreja do “sim, sim não, não”.

Que a glória da cruz de Cristo, a glória do Senhor morto por nós e ressuscitado, brilhe em nossa vida de cristãos em cada dia.


(*) Arcebispo emérito de Maceió







QUEM ESTÁ FALANDO A VERDADE ?
Edilberto Sena
(edilrural@gmail.com)


As notícias que chegam do governo federal, tanto de ministros, como do próprio presidente da republica são positivas. A crise financeira mundial tem e terá leves conseqüências para a economia e a população brasileira, segundo eles. Embora hoje o presidente esteja mais cauteloso e não fala mais em marolinha, ou pequeno banzeiro, já fala agora até em tocar nas cadernetas de poupança de quem tem.

Esse otimismo insistente do pessoal do governo federal deixa de pulga na orelha a quem observa outros sinais não tão positivos. Primeiro, que há pensadores sérios que garantem que o Brasil e a população vão sim, sofrer conseqüências mais graves dessa crise indecente do capitalismo mundial, que o pior está ainda por vir. Os grandes provocadores da crise vão dando o jeito de se sair bem dela e o pau vai cair em cima dos mais fracos, incluindo ai o Brasil.

Além disso, chega um outro sinal de que a crise no Brasil não será suave. Chega por aqui a notícia de que as autoridades estão fazendo cadastramento de mais famílias para o bolsa família. Ora se está aumentando o número de famílias que precisam daquela bolsa, é sinal de que está aumentando a miséria. Só no município de Santarém, no ano passado eram mais de 20 mil famílias nessas condições; provavelmente vai aumentar o número após esse novo cadastramento.

Não adianta o pessoal do governo anunciar que milhares de famílias tenham saído do Estado de miséria com o suporte do bolsa família, pois esse suporte é um gesso econômico, na hora em que retirar essa dependência, boa parte dos ascendentes voltarão ao estado de miséria, pois não há tanto aumento de emprego assim como dizem.

O bolsa família que era para ser temporário, do primeiro mandato do presidente, tornou-se uma muleta para o sucesso. Frei Beto que era linha de frente no projeto Fome Zero, abandonou o governo do seu amigo Lula, por ver que o plano Fome Zero perdeu o rumo e o governo não reagiu, não avançou e se conformou com a ilusão do bolsa família.

Daí, quem está falando a verdade? Os discursos otimistas, ou a realidade do bolsa família, isto é, da miséria? Se só no município de Santarém são cerca de 100 mil pessoas dependendo dos R$ 125,00 por mês, como falar que a vida melhorou para boa parte dos brasileiros que vivia na miséria? Vivia ou continua vivendo?







TEXTO DE LUG COSTA


O que buscas aqui?
- Nem eu mesmo sei. Indago.
- O que exatamente?
- Qualquer coisa que esteja ao alcance dos meus sentidos.
- E existe alguma coisa que esteja fora do alcance dos sentidos?
- Você não ficará ofendido com a minha resposta?
- Claro que não.
- Existe sim: você. Por isso é que o encontro entre duas pessoas é o início da busca.



(28.10.2008 – 9:49h – Caxias/MA)





SONORIDADES DO SÃO FRANCISCO
Paulo Rebêlo)
(www.rebelo.org)





Grupo Caçuá, do ponto de cultura Olha o Chico, de Piaçabuçu, em Alagoas, e o Bongar, de Pernambuco, juntaram forças para resgatar arte de mestres griôs

Analfabeto, iletrado e sem conhecimento suficiente para ensinar nada. Quem não conhece Cícero Lino, pode até acreditar. Porque assim ele se apresenta aos desavisados que se aproximam dos muros verdes de sua casa.

Estamos no centro de Piaçabuçu, um pequeno município na foz do rio São Francisco em Alagoas, a 140 km de Maceió e 400 km do Recife, pelo litoral. A exemplo de outras cidades abraçadas pelo rio, não é apenas o cotidiano das pessoas que depende das águas. Aqui, os sons, a poesia e as histórias estão diretamente ligadas à onipresença do Velho Chico.

O jeito de se apresentar não é falsa modéstia de Cícero Lino. Apenas fruto da curiosa trajetória deste simpático mestre pifeiro, natural de um sítio na fazenda Gameleira, distrito de Penedo.

Aos 65 anos de idade, dos quais os últimos 19 em Piaçabuçu, Cícero Lino consegue “tirar” som de qualquer pífano que chegue às mãos. Certa vez, a pedidos, ele mesmo fez dois instrumentos usando apenas cano PVC. E os guarda com carinho até hoje, junto aos cadernos onde escreve as letras de suas próprias canções, apenas com o português “ouvido”.
Poesia certa por linhas tortas. De quem estudou por apenas quatro meses alternados. “Para cada dia que conseguia ir à aula depois do trabalho na roça, eu fazia uma marca na parede de casa. Quando a professora foi embora e não mais voltou, contei e havia 120 tracinhos na parede”, conta.

São os mesmos ouvidos pelos quais Cícero encantou-se com o pife, ainda garoto, no sítio. De tanto ouvir os tocadores da região, ele aproveitou um descuido deles e pegou escondido um dos pífanos deixados sob a mesa.

Em poucos minutos, escondido debaixo da mesa, mediu com as próprias mãos tamanho, diâmetro, comprimento e distância entre cada sopro. Correu para casa com tudo na memória e fez seu primeiro pífano. “O resultado foi um desastre. Fiquei horas soprando e não saiu nada…”, recorda, aos risos. Foram dois longos dias, tentativas e erros, até conseguir o primeiro som. E depois não sabia mais o que fazer, sem um mestre para ensiná-lo, sem professor, sem um guia.

A descoberta do talento foi por acaso. Por conta do trabalho na roça, Cícero passou anos sem tocar. Às vezes, treinava sozinho em casa por diversão. Certo dia, já morando em Piaçabuçu, um desesperado produtor de Maceió procurava alguém que tocasse pífano na região, pois o famoso pifeiro da banda caiu doente e faltavam poucas horas para o show. Ninguém conhecia. Até que o produtor viu uma criança sentada na calçada, dizendo baixinho “o pai sabe… o pai sabe…”

A criança em questão era ninguém menos que Cecília Lino, hoje formada e casada em Maceió, filha de Cícero. Com aquele “o pai sabe”, a vida de Cícero mudou. “Eu nunca havia tocado em público, suei frio. Claro, foi um desastre. Mas os tocadores da época gostaram do sopro, eu acho… depois convidaram para praticar com eles. E o resto é história”, relembra.
Cícero Lino, um mestre do pife sem mestre, não é exatamente um desconhecido. Ao menos, não hoje e não depois de 2003, quando ganhou o mundo por conta de sua pequena participação no filme Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues, com filmagens na região de Piaçabuçu.

A arte de Cícero, contudo, é uma das inúmeras expressões culturais carregadas por gerações pelos mestres griôs de Alagoas e, cada vez mais, esquecidas pelos mais jovens. Aparentemente desconhecidos para as massas, vez por outra ganham destaque graças a projetos de divulgação e, sobretudo, do empenho pessoal de pequenos grupos preocupados em manter as tradições vivas.

Grupos como o Caçuá, atualmente gerenciando o ponto de cultura Olha o Chico, em Piaçabuçu; e o Bongar, de Pernambuco, vindo do quilombola Xambá, em Olinda. Cientes de que a sonoridade do São Francisco, embora tão próxima de nós aqui em Pernambuco, ainda seja uma incógnita para tanta gente, esses dois grupos resolveram juntar forças. E tentam resgatar tradições esquecidas, recuperar sons e artes de mestres griôs como Pagode, Manoel Correia, Dona Lurdes, Ferrete, entre tantos outros, entre quase 30 mestres griôs somente no entorno de Piaçabuçu.

Desde 2001, o Bongar desenvolve um trabalho musical e artístico com jovens da comunidade. Jasiel Martins e Guitinho da Xambá, representantes do Caçuá e do Bongar, respectivamente, se conheceram em São Cristóvão (Sergipe) durante um festival de música.

A experiência mútua entre os dois grupos - e os dois estados - ocorre com a vivência de experiências de seus habitantes, desde o ritual da pesca, da colheita, do amassar o barro para construção de casas por meio de coco de roda, do plantio das raízes, e evidentemente as histórias de vida e as canções.

Hoje, eles se apresentam em Piaçabuçu e, domingo, no teatro Sete de Setembro, em Penedo. No dia 5 de abril, uma pequena parte deste som do São Francisco, integrado à batida olindense, poderá ser conferido no auditório da Livraria Cultura, às 17h, no Recife. Quando finalmente Bongar e Caçuá vão colocar em prática os ensaios, pesquisas e convivências dos últimos meses com os mestres griôs de Alagoas.

Uma oportunidade para conhecer novos ritmos e novas prosas destes mestres griôs que, debaixo de um sol escaldante em Piaçabuçu, parecem incansáveis em cantar suas histórias e trajetórias. Saiba mais em www.myspace.com/grupobongar



(*) Fotos do autor.
Publicado no Diário de Pernambuco.






DANCEMOS
Maria Inês Simões
www.mis.art.br
mis@mis.art.br


pares inseridos
pistas lisas
versos mundos
flores - deslizes

...tocam fundo...

...melodias...
ao compasso deste passo
rodopios nesta dança
gira música instrumento
executa este momento direito
neste som
em vibração - sensação

...toque ebulição...








A VIDA
Célia Cavalcanti
(cglcavalcanti@terra.com.br)


É como um rio que corre...o sol que nasce e morre...
Criança que chora e sorri, jogador que perde e sofre...
É noite que precede a aurora é como neve a queimar,
É sombra que traz calor é mar que nunca esvazia...
É o amor que parte e o coração que se parte
E outro amor que renasce...
É gente pedindo paz e guerra que gente faz,
É luta do mal contra o bem e pouco importa ninguém...
É rico que pouco tem e pobre que rico é.
É como chuva a cair e a seca que nunca tem fim...
A promoção já definida pra quem devia sair...
E fica sempre por baixo aquele que deve subir.
É uma rotina sem fim, é um viver para quê?
É um lutar, um querer, uma esperança a morrer...
E num eterno contraste aqui se vive, se nasce.
E não se encontra igualdade, onde estás felicidade?

É como um rio que corre, é ponteiro a circular...
É dado que só marca zero pra quem nunca sorte terá...
Aqui se vive, se morre e a vida fica a girar...
É como um rio que corre,é alegria , é dor sem parar
É muito amor a queimar que não se pode conter...
É tudo isso a vida, como é difícil viver!...